segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

PARA COMEÇAR O ANO TERCEIRÃO 2014!

Vocês que estão entrando no Terceirão 2014 comecem a refletir antes de chegar em sala se esses 11 anos de escola antes de chegar aqui os levou a uma aprendizagem realmente coerente,pois é preciso que tenhas plena consciência do que quer para conseguir os objetivos planejados para 2014.Então,comece a ler e refletir  com o texto de Alessandro Eloy abaixo.

ESTUDAR É UM DEVER, NÃO UM DIREIT0

                                         por Alessandro Eloy Braga*

Até onde entendo, a aprendizagem só acontece, verdadeiramente, quando o indivíduo entra em um processo de reflexão pessoal sobre as coisas, sobre as informações que adquiriu, para depois construir momentos de discussão com seus próximos, para uma troca de visões e opiniões, para, novamente, entrar em processo de reflexão pessoal. As informações que o aluno precisa adquirir estão aí, na vida, no dia-a-dia das experiências. As informações estão nos livros, importantíssimos canais de aquisição destas informações e de proposição de discussões. 

Assim, para iniciar o processo de aprendizagem, o aluno precisa observar o mundo e, principalmente, LER MUITO. Ler muito não necessariamente significa ler uma grande quantidade de livros. Significa, antes de tudo, ler (no sentido de perceber os significantes impressos no livro e construir na mente seus significados) uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes e quantas forem necessárias para construir uma idéia sobre o que foi lido. LER MUITO é LER BEM. Contudo, este contato inicial com o livro e com o mundo é apenas o momento de aquisição de informações. É preciso, depois, discutir as impressões e as opiniões iniciais formadas neste processo de aquisição consigo, com o próximo, com o colega de turma e, principalmente, com os pais e com os professores. 

Todavia, aqui está o primeiro grande problema da educação brasileira: os alunos NÃO QUEREM LER e, por conseguinte, não querem estudar. Os alunos TÊM PREGUIÇA DE LER. Os alunos preferem ler os resumos dos livros (quando há) em livrinhos didáticos de qualidade duvidosa do que ler a obra completa. Os alunos preferem assistir ao filme do livro (quando há) do que ler a obra completa. Os alunos fazem de tudo para fugir de sua RESPONSABILIDADE de leitor do mundo. Não se preocupam se não estão aprendendo, mas se preocupam se terão nota ao final do processo letivo. Contudo, como ter nota sem estudar e aprender?

LER É UM PROCESSO SOFRIDO, que obriga o leitor a passar horas sentado em algum lugar, parado, concentrando-se em um objeto que não é dinâmico - como são a televisão ou o cinema ou a Internet -, que têm palavras que ele desconhece e que trata de uma história que, à primeira vista, não tem uma aplicabilidade prática em sua vida. Da mesma forma, como é difícil para o aluno, "coitado", ter que ficar horas sentado em uma sala, ouvindo um professor em um processo que também não é dinâmico ou divertido como a televisão e o futebol de rua ou o video game.
Como sofre o nosso "pobre aluno", vítima da maldade do processo educacional. É assim que pensam muitos especialistas de nossa educação e transmitem esses pensamentos em seus livros, belos livros lidos por centenas de pedagogos e pela mídia e o Estado que teimam em depositar no professor e na escola a culpa e a responsabilidade pela má formação de nossos alunos.

Mas, se é o aluno que conversa em sala de aula; se é o aluno que tem preguiça de estudar em casa; se é o aluno que tem preguiça e desinteresse em fazer as atividades propostas pelo professor; se é o aluno que não lê os livros indicados pelos professores; se é o aluno que troca uma hora de estudo por três horas no shopping ou uma madrugada inteira em um chat ou blog idiota na Internet; se é o aluno que leva seu celular ou sei iPOD para a sala e fica jogando e escutando música durante as aulas; se o Estado não dá subsídios para que os mais pobres possam dedicar-se aos estudos e não ao trabalho infantil; se o Estado não constrói escolas com infra-estrutura adequada e com certa agradabilidade; se o ensino superior brasileiro e os cursos de formação de professores estão deficitários no que diz respeito a carga horária e disciplinas, a culpa é do professor e da escola que não estão desempenhando sua função como deveriam? Se são os pais que não acompanham o desenvolvimento de seus filhos na escola; se são o pais que não assumem para a si a responsabilidade e tarefa social de impor a seus filhos o dever social de se dedicar à educação; se são os pais que compram os celulares, os video games, os computadores, a Internet, os joguinhos eletrônicos, que dão o dinheiro para o shopping; se são os pais que colocam seus filhos para trabalhar ainda crianças; se são os pais que não ensinam limites comportamentais a seus filhos e valores morais básicos, é a escola e os professores que não estão desempenhando suas funções? Se são os especialistas da educação que dizem que o aluno é um cliente, que ele deve ter prazer ao ir para a escola, que o professor e a escola devem fazer de tudo para que ele atinja este "êxtase" escolar; se são estes especialistas que falam que o professor deve ser um "facilitador" do processo ensino-aprendizagem; se são eles que dizem que a escola deve adaptar-se às mudanças sociais e aos desejos dos alunos, contribuindo, assim, com este discurso para o desgaste da imagem da escola e dos professores diante da sociedade, são os professores e a escola que não estão desempenhando seus papéis como deveriam? Se o Estado não paga salários que condizem com a importância do professor para construção da sociedade, haja vista que um funcionário concursado do Senado ou de um tribunal qualquer, com nível médio, ganha três vezes mais que um professor com mestrado e duas vezes mais que um professor com doutorado nas redes públicas de ensino básico e superior, a culpa pela má educação e desvalorização do processo educacional no Brasil é da escola e dos professores? Quem define estes valores? É um servidor de cafezinho no Senado mais importante que um Professor para a sociedade?
Os pais perguntam a seus filhos se eles querem andar vestidos ou nus? Os pais perguntam a seus filhos se eles querem ou não tomar banho todos os dias? Os pais perguntam a seus filhos se eles querem ou não escovar os dentes três vezes ao dia? Os pais perguntam a seus filhos se eles querem ou não se alimentar? Os pais perguntam a seus filhos se eles querem ou não usar drogas, ou consumir álcool, ou fumar? Perguntam se eles querem ou não matar alguém, queimar dinheiro? Os filhos podem interferir nestas decisões? Não. Porque são necessidades sociais e pessoais básicas, que precisam ser exercidas e desempenhadas sejam elas prazerosas ou não, elas precisam ser feitas. São imposições feitas pela sociedade e pela convivência humana e que não podem ser decididas ou colocadas à escolha da criança ou do adolescente. O filho, nestes casos, também é um cliente dos pais e que precisa ter suas vontades satisfeitas? Não. A Educação também precisa ser vista pelos pais, pelo Estado e pelos alunos como uma necessidade, ou melhor, uma obrigação social e pessoal básica.
            A escola não é uma loja de shopping. A escola não é um parque de diversões. O professor não é um vendedor, não é missionário, não é mendigo - para mendigar a atenção dos alunos em sala de aula -, não é pai, mãe e nem babá. O professor não é um palhaço ou um mestre de cerimônias. O professor é um profissional. A escola, não é espaço de diversão ou de prazeres, ela é um local para onde se vai para aprender coisas que são OBRIGATORIAMENTE NECESSÁRIAS SOCIAL E INDIVIDUALMENTE aos indivíduos, para que eles desempenhem seu papel de cidadão e ser humano com a responsabilidade e a ética que a sociedade deveria esperar deles. O ALUNO NÃO TEM ESCOLHA, ELE PRECISA ESTUDAR E APRENDER, assim como ele precisa tomar banho, escovar os dentes, não matar o próximo, não consumir drogas, não beber, não fumar. Porque é preciso ter em mente que educar-se deve ser uma responsabilidade do cidadão perante a sociedade. Por que é nosso dever com o Estado pagar impostos, mas estudar é apenas um direito? ESTUDAR É UM DEVER, NÃO UM DIREITO, como equivocadamente e erroneamente afirma a nossa própria Constituição Federal, porque o bem estar da sociedade depende, diretamente, da qualidade da educação que oferecemos e construímos.
A educação não é nem deve ser um processo prazeroso apenas, como querem muitos. A educação é um processo sofrido, porque exige dedicação, comprometimento, trabalho, horas de estudo, esforço, concentração, responsabilidade, é abdicar do lazer para pensar sobre os problemas sociais e individuais, é atitude. Estas coisas não são prazerosas.
O Professor é alguém que tem obrigação de ser ouvido por seus alunos e pela sociedade naquilo que diz respeito à sua especialidade de formação. Porque ele é um formador de opiniões, alguém que estudou para ter algo significativo a dizer. Contudo, preferimos ouvir "abobrinhas" de um apresentador de televisão ou de um cantor da moda.
            E ainda há os que têm coragem de afirmar que "a escola deve adaptar-se às mudanças sociais", que "a escola está muito distante da realidade". Se a escola for se espelhar nas mudanças contínuas da sociedade ou correr atrás da realidade para compor seus conteúdos, objetivos e identidade, ela pode fechar suas portas, porque vai perder seu sentido de existência. A escola, assim como as Igrejas, tem o fundamental e importantíssimo papel de realizar a manutenção de valores éticos e morais imprescindíveis ao ser humano e que foram construídos durante centenas de anos de história e reflexão sobre a humanidade por filósofos, sociólogos, teólogos e cientistas que despenderam anos e anos de um sacrifício pessoal para construir um conhecimento valoroso para a humanidade. Seria como pedir ao Papa que a Igreja se torne a favor do aborto e da poligamia. Ela poderia fechar suas portas se assim o fizesse, porque perderia seus princípios básicos e a sua função formadora.
O princípio básico da escola é discutir a realidade de forma séria, demorada, madura e autônoma. É dever da escola, assim como das Igrejas, manter a sobriedade, a consciência e os valores essenciais da humanidade, propondo mudanças quando necessário e mantendo padrões quando também necessário e não correr atrás dos modismos fúteis e efêmeros de uma sociedade cada vez mais mergulhada na lama de um materialismo vazio, do tecnicismo, de um progresso tem como fim o hedonismo fútil, que teima em querer afirmar a escola como local apenas de prazeres. Se assim for, deixemos a educação para ser feita pelos parques de diversão, shoppings e televisão. Afinal, para que escola e para que professores, questionam-se atualmente nossos alunos, se temos a Internet e a televisão? Para que sofrer estudando e lendo e pesquisando e ouvindo as asneiras de um professor se os rappers e MCs e faustões e axés e forrós e trances e outras drogas, químicas ou não, tem muito mais a dizer e são mais prazerosas?
Precisamos é mudar a pergunta que os pedagogos erroneamente têm feito. Não devemos mais nos perguntar "O professor está ensinando e o aluno aprendendo?". Precisamos nos perguntar: "O aluno está estudando?".
Se ser professor não vale à pena, como insistem em falar presidentes da república e a sociedade em geral - o que justifica as licenciaturas serem cursos preenchidos, em sua maioria, praticamente por pessoas de classes média e baixa (por causa se sua baixíssima remuneração e reconhecimento social) e oferecidos, principalmente, em faculdades particulares (muitas delas com qualidade duvidosa), enquanto os ricos inundam as universidades públicas em cursos caríssimos como Direito, Publicidade, Engenharia e Medicina -, então fechemos de vez os cursos de formação de professores e vamos ver no que vai dar esta nossa já ignorante e cega sociedade.
É certo que os rumos da educação estão ligados àquilo que a sociedade quer para si. Se esta mesma sociedade quer futilidade, hedonismo, superficialidade, amoralidade, violência, corrupção e miséria, então nossa escola está no caminho certo. Contudo, se ainda há alguém que deseja uma sociedade intelectualmente e emocionalmente madura, com valores, ética, responsabilidade, respeito, paz, então já passou da hora de mudar os rumos deste nosso decadente e já falido processo educacional, assumindo cada um a sua responsabilidade pelo triste quadro posto, principalmente a família, o Estado e o aluno.

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* Licenciado em Letras, Mestre em Educação, Coordenador do Curso de Letras da Faculdade Jesus Maria José (FAJESU) em Brasília-DF e Professor da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal.

3 comentários:

  1. É, Professor Alessandro.Talvez haja muito de reflexão a ser feita diante do seu "desabafo". Entendo que a angústia de novos olhares sobre onde e quando devemos ter prazer, possa também contribuir para alguns equívocos lastreados no lapso do tempo.
    Estudar, para mim, é diferente de aprender. São dois grandes pilares do desenvolvimento do indivíduo. Hoje (me refiro a atual era da cibernética), aprender é quase instantâneo, porém a relação deste aprendizado com os estudos ou com conteúdos e informações socialmente sadias é outra história.
    Famir Apontes

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  2. Prezados, gostaria de agradecer a vocês pela publicação e divulgação deste meu texto "Estudar é um dever, não um direito".Grande é o meu contentamento em ver minhas palavras e ideias dando frutos. Espero que a leitura seja enriquecedora. Um abraço fraterno a todos.

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  3. Prezado, Famir, obrigado pelos comentários. Certamente precisamos fazer muitas reflexões sobre a educação em nosso país... mas reflexões sérias e não politicagem ou manipulações interesseiras. Reflexões que já passaram da hora de serem feitas, porque os frutos ruins de anos de sucatiamento educacional já estão caindo podres dos galhos sociais. Obrigado por suas palavras.

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