sábado, 20 de julho de 2013

Série:50 anos da renúncia de Jânio Quadros

Fonte: Veja.abril

* Retórica

A coreografia de um gênio do palanque

Ao personagem popular, de cabelos desalinhados e terno amarrotado, somavam-se discursos inteligentes, nos quais enfileirava raridades gramaticais pinçadas dos desvãos do dicionário

Walter Firmo/Agência JB
17 de julho de 1961 - Jânio discursa em inauguração da Escola de Metalurgia, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro
17 de julho de 1961 - Jânio discursa em inauguração da Escola de Metalurgia, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro

"Naquele Brasil em que a televisão ainda engatinhava, os comícios eram uma espécie de novela das 8 e os principais atores políticos, tão populares quanto as estrelas da Globo hoje. Nenhum fez tanto sucesso quanto Jânio Quadros em 1960. Durante a temporada eleitoral, o candidato à presidência protagonizou em centenas de cidades apresentações em que se revelou um gênio do palanque.

A coreografia e o roteiro se repetiram em todos os comícios. Ele chegava no fim da festa, suando sob o terno de suburbano salpicado pela caspa e empunhando um sanduíche que simulava a falta de tempo para refeições normais. Convocado pelo locutor, passeava o olhar estrábico pelo oceano de vassouras antes de começar o discurso, sempre melhor na forma do que no conteúdo.

Sem cometer um único erro gramatical, enfileirava mesóclises e ênclises, abusava dos pronomes oblíquos e colecionava raridades pinçadas dos desvãos do dicionário para comunicar que chegara a hora de enquadrar os corruptos, os maus funcionários públicos, os empresários gananciosos, os adversários em geral e o presidente da República em particular. Dado o recado, Eloá se aproximava para, abraçada ao marido, endossar em silêncio a fala de encerramento.

“Minha mulher pediu-me que dirigisse as últimas palavras à mulher brasileira, a verdadeira dona da vassoura”, sublinhava o sotaque inconfundível. “Àquela que sofre no trabalho permanente do lar, que deve equilibrar as contas de salários de miséria.” Encerrado o espetáculo, as eleitoras exibiam o sorriso de quem descobrira que, olhando bem, Jânio Quadros, além de tudo, não era tão feio quanto diziam.

Para o povo
No dia da posse, uma multidão se reuniu na Praça dos Três Poderes, em frente ao Palácio do Planalto, para ouvir a despedida de JK e receber o novo presidente


Na posse, momento acompanhado por todo o país, Jânio foi mais Jânio do que nunca. Dois dias antes da cerimônia, Oscar Pedroso Horta, ministro da Justiça do presidente eleito, contou ao poeta Augusto Frederico Schmidt que o novo presidente pretendia responsabilizar JK por entregar-lhe “um país falido, um vendaval de insânias e um reinado de nepotismo”. Ao ouvir a informação, Juscelino prometeu reagir com um soco no rosto do desafeto.

Da mesma forma que o primeiro, feito no Congresso, o segundo discurso do dia, depois da transmissão da faixa presidencial, não fez referências a JK. Jânio só cumpriu a promessa à noite, num pronunciamento de 40 minutos em cadeia nacional de rádio. O agredido já não podia reagir. A bordo de um avião, cruzava o Atlântico em direção à Europa. "

Da Revista VEJA

Série: 50 anos da Renúncia de Jânio Quadros

Fonte: Veja.abril

*A presidência breve

Sete meses na montanha-russa

O governo de Jânio tangenciou o penhasco com perturbadora frequência, alternando freadas bruscas com acelerações vertiginosas. O abandono prematuro do governo foi uma das cenas desse mesmíssimo roteiro

31 de janeiro de 1961 - Jânio Quadros discursa durante a cerimônia de diplomação no Tribunal Superior Eleitoral
31 de janeiro de 1961 - Jânio Quadros discursa durante a cerimônia de diplomação no Tribunal Superior Eleitoral - Acervo Iconographia

Em 1° de fevereiro de 1961, 24 horas depois da posse de Jânio, a maioria oposicionista no Congresso ameaçou-o com a convocação de uma sessão especial da Câmara e do Senado caso continuasse hostilizando o antecessor. O novo presidente reagiu com a criação de cinco comissões de sindicância, chefiadas por militares e incumbidas de investigar “focos de corrupção” que dizia ter herdado de JK. Nos 204 dias seguintes, o Brasil viajou numa montanha-russa monitorada por um quarentão que obedecia a impulsos ditados pelo instinto. Sempre dera certo.

Tangenciando o penhasco com perturbadora frequência, alternando freadas bruscas com acelerações vertiginosas, entre uma crítica a Juscelino e um ataque ao Poder Legislativo, Jânio aumentou de seis para oito horas o expediente dos servidores públicos, tornou obrigatório o cartão de ponto, exonerou todos os contratados nos cinco meses anteriores, suspendeu nomeações por um ano, reduziu o orçamento das Forças Armadas e o soldo dos militares em serviço no exterior, diminuiu o número de funcionários em todas as embaixadas, tabelou o preço do arroz e do feijão, solidarizou-se com Fidel Castro no episódio da invasão de Cuba financiada pelos Estados Unidos, baixou medidas de combate ao monopólio, desvalorizou a moeda, determinou ao Itamaraty que apressasse o restabelecimento de relações diplomáticas com a União Soviética, proibiu biquíni na praia, maiô em concurso de miss, lança-perfume, corridas de cavalo em dias úteis, veiculação de comerciais no cinema e brigas de galo, ordenou a prisão de um general que presidira a Petrobras e tirou do ar por três dias a Rádio JB para puni-la por críticas ao governo, mobilizou o Exército para reprimir uma greve de estudantes em Recife, brigou com a UDN, afastou-se dos demais partidos que tentavam ampará-lo, instituiu o governo itinerante, regulamentou a remessa de juros para o exterior, enviou o vice João Goulart à China em missão oficial, condecorou Che Guevara e rompeu com Carlos Lacerda.

No 207° dia de governo, renunciou à Presidência da República.
 

As decisões histriônicas e as decisões sérias de Jânio Quadros

Em Brasília, Jânio alimentou sua inclinação por medidas idiossincráticas, exageradas e muito esquisitas. Por outro lado, o presidente fez decretos de algum bom senso para aquela época 

1.Brigas de galo

 
4 de novembro de 1959 - Apostadores em rinha de galo em São Paulo aguardam o começo da briga
Em 18 de maio de 1961, Jânio decretou a proibição das rinhas em todo o país. Em um tempo em que o politicamente incorreto inexistia e os cuidados com animais soavam como bizarrice, o veto virou manchete de jornal. E também provocou gritaria: o esporte de péssimo gosto movimentava uma dinheirama em aposta.

2. Hipnotismo

 
1º de outubro de 1959 - Pessoas em profundo sono hipnótico durante espetáculo no Colégio Diocesano, em São Paulo, promovido pelo irmão marista Vitricio, a maior autoridade brasileira em letargia
Decreto de 22 de julho de 1961. No início dos anos 60, os espetáculos de mesmerismo faziam imenso sucesso. Jânio resolveu proibi-los para impedir o uso falsamente medicamentoso dos truques. O problema é que ninguém estava muito interessado no assunto.

3.Concurso de miss

 
8 de junho de 1961 - A Miss Brasil Staël Maria Rocha Abelha posa de maiô acompanhada de outras misses no último concurso antes da proibição de Jânio
Moralista e mulherengo, o presidente decidiu que as participantes dos concursos de beleza não podiam se apresentar em "trajes de banho, sendo tolerado o uso de saiote". A regra nunca foi aplicada, embora tenha sido revogada apenas em 1991. Para fazê-la funcionar, foi criada a polícia de costumes, outro exotismo dispensável da era janista.

4.Preservação ambiental

 
Década de 50 - Integrante da expedição Roncador-Xingu, organizada pelos irmãos Villas Boas, entrega roupas para índios cuicuru na região do Alto Xingu. Num ato pioneiro de cuidado com o ambiente, Jânio criou vários parques nacionais e reservas florestais. O Parque Nacional do Xingu foi o primeiro nascido com a ideia de preservar a "área como reserva florestal e campo de estudo de riquezas naturais brasileiras", em 14 de abril de 1961.


5.Política externa independente

 
1° de janeiro de 1961 - Mao tsé-Tung aproveita para descansar enquanto viaja de trem para a Montanha de Lushan. O comunista chinês recebeu o vice-presidente João Goulart quando de sua viagem oficial à China. Jango esteve lá quando Jânio renunciou Jânio resolveu retomar as relações com a China, que estavam estremecidas desde a instalação de Mao tsé-Tung no poder, em 1949. A aproximação com a China e outras nações comunistas, como Cuba e a antiga União Soviética, fazia parte do plano de política externa independente, coordenado pelo ministro das Relações Exteriores Afonso Arinos, que procurava estabelecer relações comerciais e diplomáticas com todas as nações.

6.Restrições econômicas

 
7 de maio de 1961 - O ministro da Fazenda, Clemente Mariani, foi o grande responsável pela implementação das medidas econômicas do governo janista
Na tentativa de equilibrar a balança comercial, Jânio acabou com subsídios ao câmbio que beneficiavam determinados grupos econômicos importadores. O presidente também limitou e regulamentou a remessa de lucros para o exterior das empresas multinacionais, ideias de seu ministro da Fazenda, Clemente Mariani.

Série: 50 anos da Renúncia de Jânio Quadros

"Foi o maior erro que cometi"

A confissão tardia, pouco antes da morte, não absolve Jânio. Com a desistência abrupta, a democracia brasileira começou a agonizar em 25 de agosto de 1961

                                        Agência Estado
25 de agosto de 1961 - Jânio Quadros acena do carro no qual segue para a Base Aérea de Brasília após a renúncia
25 de agosto de 1961 - Jânio Quadros acena do carro no qual segue para a Base Aérea de Brasília após a renúncia
                                                                    

Irritado com o discurso em que Carlos Lacerda o acusara de tramar um “golpe de gabinete”, Jânio Quadros atravessou sem dormir a madrugada de 25 de agosto. E desceu para o café da manhã com Eloá, ao lado da piscina do Palácio da Alvorada, resolvido a tirar o sono do Brasil. Ao erguer-se da mesa, sobressaltou a primeira-dama com outra frase dramática: “A conspiração está em marcha, mas vergar, eu não vergo!”. Chegou ao Planalto às 6 horas, convocou os chefes da Casa Civil e da Casa Militar para uma reunião de emergência e, acariciando o bigode de dono de botequim, surpreendeu-os com a manchete da próxima edição de todos os jornais: “Comunico aos senhores que renuncio, hoje, à Presidência da República”.

Foi para o desfile do Dia do Soldado, convocou os três ministros militares para um encontro no Planalto e deixou-os atônitos com a notícia. Replicou aos apelos para que mudasse de ideia com outro palavrório solene, encerrado com a  identificação do culpado: “Ajustem o novo Brasil às exigências do Brasil novo. Com esse Congresso, eu não posso governar”. Ordenou ao ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, que entregasse a carta redigida seis dias antes ao presidente do Senado, Auro de Moura Andrade. Na hora do almoço, embarcou rumo à Base Aérea de Cumbica para a demorada escala que precedeu a partida para a Europa a bordo de um navio cargueiro. No dia 26, o país mergulhou na crise provocada pelo veto militar à posse do vice João Goulart.

Notícia urgente
Boletim extraordinário do Repórter Esso, o programa de jornalismo mais famoso da época, comunica a renúncia de Jânio
“Foi o maior erro que cometi”, confessou ao neto Jânio John meses antes da morte. “Com a renúncia, pedi um voto de confiança à minha permanência no poder. Imaginei que o povo iria às ruas, seguido dos militares, e que seria chamado de volta. Deu tudo errado.” O grande intuitivo naufragou ao peso de equívocos bisonhos. Auro de Moura Andrade informou que a renúncia é um ato de vontade unilateral e empossou o presidente da Câmara. Preocupados com Jango, os militares esqueceram Jânio. E o povo só poderia ser mobilizado por um partido janista que o líder jamais permitiu que existisse.
Três anos mais tarde, o golpe que derrubou Goulart e varreu a liberdade confirmou que a democracia, ainda em sua infância, começou a agonizar em 25 de agosto de 1961. 

O relato da jornada que mudou o Brasil

Momento a momento do 25 de agosto de 1961


5h Jânio telefonou para Quintanilha Ribeiro, chefe da Casa Civil. As ligações foram constantes desde que ouvira pelo rádio a denúncia de Carlos Lacerda de que ele estaria articulando um golpe de estado. O presidente disse a Quintanilha que havia tomado uma decisão. Pediu que convocasse o general Pedro Geraldo, chefe da Casa Militar, e que ambos o encontrassem às 6 horas, no Planalto.
5h20 Tomou o café da manhã ao lado de Eloá enquanto lia o Correio Braziliense. Conversou por telefone com Oscar Pedroso Horta, ministro da Justiça. Ao desligar, dobrou o jornal, levantou-se e proferiu uma frase dramática: “A conspiração está em marcha, mas vergar, eu não vergo!”.
6h No Palácio do Planalto, comunicou a Quintanilha Ribeiro e a Pedro Geraldo que renunciaria à Presidência da República. Em seguida, ligou para Eloá e lhe pediu que preparasse as malas, porque deixariam Brasília naquela manhã.
8h Participou da cerimônia do Dia do Soldado

O ÚLTIMO ATO OFICIAL
Cinejornal mostra Jânio em seu último ato como presidente

10h Retornou ao Palácio do Planalto e convocou uma reunião com os assessores civis e os ministros militares. Comunicou a renúncia e entregou a carta destinada ao Congresso.
10h30 Deixou o Palácio do Planalto e encontrou Eloá no Palácio da Alvorada. A primeira-dama já estava na porta, com as malas na mão.
11h Embarcou para São Paulo. Na escada do avião, testemunhas o ouviram dizer: “Cidade amaldiçoada, espero nunca mais vê-la”.
13h A renúncia foi noticiada pelo Repórter Esso.
13h30 Chegou à Base Aérea de Cumbica, em São Paulo, depois de passar trinta minutos estacionado na pista de Congonhas para o reabastecimento do avião. Ficou 22 horas na residência do comandante da base, coronel Roberto Faria Lima.
14h Uma multidão saiu às ruas de São Paulo em busca de mais notícias sobre a renúncia.
15h O deputado Dirceu Cardoso leu a carta de renúncia na Câmara.
15h15 O senador Auro de Moura Andrade recebeu o ministro Oscar Pedroso Horta em seu gabinete e tomou conhecimento da decisão de Jânio.
15h40 Moura Andrade interrompeu o orador na tribuna, o senador Nogueira da Gama. Os trabalhos foram suspensos. Uma sessão extraordinária foi convocada para dali a uma hora.
16h55 Moura Andrade abriu a sessão extraordinária do Congresso. O presidente do Senado leu os documentos da renúncia e convidou os presentes a comparecerem à posse do presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, às 17 horas, no Palácio do Planalto. Participaram da sessão 46 senadores e 230 deputados.

LEITURAS NO CONGRESSO

O presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, comunicou a renúncia e fez a leitura de um trecho da carta com as explicações de Jânio

Comunicado da renúncia

Leitura de carta
17h05 Moura Andrade encerrou a sessão extraordinária.
17h15 Ranieri Mazzilli foi empossado presidente interino.
17h45 Sentado ao lado da mulher no Aeroporto de Cumbica, Jânio murmurava, insistentemente, a mesma frase: “E o povo, onde está o povo que não se levanta?”.
18h Tropas ocuparam a Esplanada. Para garantir a posse de Jango, começou a Campanha da Legalidade, liderada pelo governador gaúcho Leonel Brizola.








Série:50 Anos da Renúncia de Jânio Quadros

por: Augusto Nunes 

O gesto que antecipou a ditadura militar

 

Otavio
Charge Jânio

"Sete anos depois do suicídio de Getúlio Vargas, sete meses depois da posse, o presidente Jânio Quadros precipitou, com sete linhas manuscritas, a sequência de crises que conduziria, sete anos mais tarde, ao Ato Institucional n° 5 — e à instauração da ditadura sem camuflagens. Na manhã de 25 de agosto de 1961, a democracia, ainda em sua infância, viu-se forçada a renunciar à maturidade, que só seria alcançada caso fossem cumpridos integralmente dois mandatos consecutivos. O Brasil civilizado pareceu mais distante do que nunca no dia em que o presidente sumiu.

Abrupto e inesperado, o último ato foi um fecho coerente para a ópera do absurdo composta desde o primeiro dia de gestão. “Ele foi a UDN de porre no governo”, resumiu Afonso Arinos de Mello Franco, ministro das Relações Exteriores.  “Faltou alguém trancá-lo no banheiro”, lastimou. 
Só se fosse para sempre, sabe-se hoje. Algumas horas de cárcere privado só adiariam a tentativa de instituir o presidencialismo autoritário que o deixaria livre para agir.

Na carta da renúncia, o signatário informou que deixara com o ministro da Justiça as razões do seu gesto. O segundo texto confiado a Oscar Pedroso Horta é um amontoado de queixas difusas, alusões a “forças terríveis”, declarações de amor ao Brasil e juras de apreço ao Povo (com maiúscula). Ele só contou a verdade alguns meses antes de morrer, em 16 de fevereiro de 1992, numa conversa com Jânio John Quadros Mulcahy, o único filho homem de Tutu Quadros.

Em 25 de agosto de 1991, 30 anos depois da renúncia, o paciente internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, foi acometido de um surto de sinceridade provocado pela curiosidade do neto. 
“O vice João Goulart era uma espécie de Lula, completamente inaceitável para a elite”, comparou. “Eu o mandei para a China para que estivesse longe de Brasília no dia da renúncia, sem condições de reivindicar o cargo e fazer articulações políticas. Achei que iriam implorar-me para que ficasse.”
O intuitivo genial só se esqueceu de combinar com os adversários, com os militares e com o povo. “Fiquei com a faixa presidencial até o dia 26”, contou ao neto. “Deu tudo errado. E o país pagou um preço muito alto.” Jango acabou engolido pelos quartéis, mas seria expelido três anos mais tarde. A tentativa de implantação de uma ditadura civil resultou no advento de uma ditadura militar ortodoxa.

Como o país, Jânio pagou caro pela renúncia ao mandato conferido por mais de 5,6 milhões de eleitores. Transformado numa caricatura de si próprio, tentou a ressurreição impossível antes e depois da cassação, em 1964. Fracassou em 1962 e em 1982, na tentativa de voltar ao governo paulista, e elegeu-se prefeito da capital em 1985. Aos 75 anos, morreu pensando na presidência. Aparentemente, a frustração pela morte política não foi compensada pela fortuna depositada num banco suíço.

Cinquenta anos depois da renúncia, o Brasil parece bem menos primitivo, a democracia tem solidez e Jânio figura na galeria presidencial como outro ponto fora da curva. Mas tampouco parece suficientemente moderno para considerar-se livre de reprises da farsa. Países exauridos pela corrupção endêmica serão sempre vulneráveis a aventureiros que, com um discurso sedutoramente agressivo, prometam varrer a bandalheira. "

Fonte: VEJA

sábado, 13 de julho de 2013

Cartão Postal de PVH

O Maior Cartão postal de PORTO VELHO

            A MAIOR riqueza de Rondônia.


estrada-de-ferro 
                                                        Foto: Ilustrativa/fonte- google

Há algum tempo  poderíamos apostar nas Três Caixas d’agua, ou mesmo na Estrada de Ferro Madeira Mamoré – tão famosa por seu belo pôr do sol.
O fato é que a cidade de Porto Velho cresceu as margens de uma ferrovia abandonada, feita as custas de vidas, as custas de lagrimas. Já ouvi dizer que para cada prego, um osso.
Muitos dos desbravadores que aqui chegaram, vieram na esperança de encontrar o “El Dourado” uma cidade toda feita de ouro e minérios nobre que segundo a lenda está escondida em algum ponto dessa região do norte. E naquela época, chegar aqui (na região norte) era o primeiro passo para abraçar todas as riquezas e ser dono de todo ouro.
Muitos perderam suas vidas nessa busca, muitos apenas se perderam.
E cada homem e mulher que chegou aqui, trouxe consigo uma vasta cultura, rica em peculiaridades e costumes – mesmo que não soubesse. E esses costumes e essas peculiaridades se misturaram com tantas e mais tantas outras que nasceu a cultura Porto-velhense, mas qual seria essa cultura. Bom é ai que está, não pode ser definida.
De tão rica, tão nobre a cultura porto-velhense não pode ser definida em parâmetros, e justamente por isso a cada dia, perdemos mais e mais, e ao mesmo tempo agregamos mais e mais.
Um bom exemplo disso é ir em um domingo a tarde na Estrada de Ferro Madeira Mamoré e ver jovens sentados na grama (entenda muitos jovens, muitos mesmo, de várias tribos urbanas, de vários nichos, meios, classes – todos sentados juntos, como iguais, fazendo uma única coisa...) escutando música, em um evento promovido por eles, para eles. Um estilo americano, mas que também é porto-velhense.
Não se pode limitar o poder da cultura Rondoniense, nem muito menos como as pessoas expressam isso.
Os desbravadores não sabiam naquela época o que é bem obvio hoje; o “Eldorado” não estava fora, estava dentro, dentro das pessoas, dentro deles mesmo, eles eram a riqueza que iriam compor a cidade.
Conversando com um hippie por nome Javier, ele me disse: - “Porto Velho está em um ponto estratégico, onde todos nós (hippies, nômades, ciganos...) passamos, e da mesma forma que deixamos um pouco de nós, levamos um pouco da cidade, absorvemos muito e as pessoas absorvem muito também”
Então, chego a minha própria conclusão – e o incentivo a chegar a sua -, o cartão postal da cidade de Porto Velho, somos nós, as pessoas que compõem essa cidade. E essas mesmas pessoas, de todas as cidades, são as maiores riquezas de Rondônia.
Já não existem mais obras que podemos usar como símbolos, nem muito menos ruas ou prédios...
Mas temos nós; você, eu, somos o símbolo...
Fonte: Francisco Silva.

sábado, 22 de junho de 2013

10 temas que poderão estar no Enem 2013

DO SITE UOL EDUCAÇÃO:

"A pedido do UOL, Rui Alves Gomes de Sá, diretor pedagógico do Pré-Enem, da Abril Educação, e Tania de Luca, da Unesp, selecionaram temas que importantes que podem cair no Enem 2013; confira:
  • Médicos estrangeiros no país: em maio, os governos do Brasil e de Cuba, com o apoio da Organização Pan-Americana da Saúde, anunciaram a possível vinda de 6.000 médicos cubanos para trabalharem nas regiões brasileiras mais carentes. O anúncio gerou polêmica;
  • Redução da maioridade penal: Após mortes ocasionadas por menores de idade do país, o debate da redução da maioridade foi amplamente retomado. Uma pesquisa da CNT (Confederação Nacional dos Transportes) afirma que a ação é defendida por mais de 90% dos brasileiros. Contudo, órgãos e entidades, como a OAB, acreditam que a redução não diminuirá a criminalidade;
  • Comissão da verdade: Com a morte de Jorge Videla, ditador argentino, Tania de Luca acredita que o exame pode abordar como foram diferentes os períodos da ditadura no Brasil e no resto da América Latina e o tipo de acerto de contas que estão sendo feitos;
  • Crise na zona do euro: "Ela está colocando em risco a própria ideia de Europa. Existe um grave problema aqui. A França acabou de se assumir como país em depressão", analisa Tania;
  • Primavera árabe: "Ela continua na Síria e agora na Turquia, onde há uma situação mais complexa. O estopim foi a possível criação de um shopping na maior área verde de Istambul e está se juntando com o processo de islamizar o país", conta a professora da Unesp; 
  • Margaret Thatcher: A morte da primeira e, até agora, única mulher a chefiar o governo do Reino Unido pode ser cobrada no Enem para que o candidato faça um balanço sobre a política externa que ela aplicou no país e sua relação com movimentos trabalhistas;
  • Hugo Chávez: Após 14 anos no poder, a morte do venezuelano abre uma nova era para o país sul-americano. O assunto poderia embasar discussões sobre o populismo e questões relacionadas às instituições democráticas;
  • Atentado em Boston: Os dois suspeitos apontados pelo FBI como responsáveis pelas explosões foram identificados como sendo os irmãos Dzhokhar, preso pela polícia, e Tamerlan, morto após tiroteio. Os dois são russos e residentes legais nos Estados Unidos há no mínimo um ano. O assunto pode ser relacionado com questões de extremismo religioso;
  • Tensão entre as Coreias: A Coreia do Norte voltou a ameaçar a vizinha e os Estados Unidos de ataques com armas nucleares. No final de março, declarou "estado de guerra" com o Sul e, em 2 de abril, anunciou que reativará suas instalações nucleares, incluindo a principal, de Yongbyon, fechada em 2007;
  • Vazamento sobre espionagem nos Estados Unidos: "É uma questão superinteressante. Agora não temos apenas o WikiLeaks", analisa Tania.
Tania acredita ainda que a questão das relações homoafetivas na França seria um tema conveniente de ser abordado no Enem 2013, mas duvida da possibilidade. "Não sei se em um país tão conservador, e ainda mais com a vinda do papa Francisco, o examinador poderia ter essa vontade", opina. "Mas é muito bom para entender as novas relações sociais".

Vale lembrar que esse ano teremos dois centenários: do escritório Rubem Braga e do poeta e compositor Vinicius de Moraes."

fONTE: UOL Educação

domingo, 26 de maio de 2013

FLAMA - Uma ideia que deu certo

O FLAMA – Festival de Literatura da Amazônia – surgiu de uma parceria entre Carlos Moreira, Alberto Lins Caldas e Marcos Aurélio Marques  ocorrido durante a semana de 20 a 25 de maio em parceria com SESC Rondônia unindo Porto Velho e Ariquemes. Conforme realizado percebe-se que o FLAMA veio para ficar,pois pretende assumir-se como uma viagem ao futuro,onde cada escritor se coloque a uma nova viagem expandindo de Porto Velho para novas cidades,pois conforme já na mente dos idealizadores o próximo deverá acontecer entre Porto Velho/Manaus e,assim prosseguindo numa caminhada de divulgação e valorização dos intelectuais da Amazônia nem sempre valorizados  pelo talento que possuem.



O Flama aconteceu com diversas oficinas e mesas redonda, onde cada mesa de debate contribuiu para a discussão sobre as possibilidades da literatura amazônica no país. Todas as mesas trabalharam temas que contribuíram para a construção de um patrimônio cultural não somente a título de região mas no caráter universal. Numa parceria com o SESC Rondônia juntamente com a IX Jornada Literária a participação de grandes nomes da cultura, fizeram o sucesso do evento em diversos temas que lotou o Teatro um do SESC e o Audicine, tais como: Prof.Elieudo Buriti (UNIR),Poeta Binho (UNIR) e Prof.Carlos Moreira (RO) na primeira mesa com o tema “Das Poéticas à Amazônia”;a participação do grupo “Cordas e Barros” no show Litero Musical;o Espetáculo “É crime não saber ler” da Cia Evolução;Oficina Cultura e Literatura abordando Narrativa e Construção de Memórias com o poeta Analton Alves;Oficina Educação,Literatura e Mídias Sociais com Carlos Moreira (um dos idealizadores do Flama) ;Palestra com o Prof. Dr.Osvaldo Copertino – O Lugar do Regionalismo na Literatura; Palestra com Prof.Edinaldo (UNIR) discorrendo sobre o tema “Literatura Amazônica – aspectos da etnicidades,contextos da  alteralidade” ;Mesa-Redonda com Estrela Leminski (PR) , Celdo Braga (AM) , Marcos Aurélio (RO),Poeta Binho (RO) – Oficina Musicalidade e Cultura Amazônica;Vertentes para educação com Prof.Ms.Marco Aurélio(RO) e Celdo Braga (AM) ;Show Poético musical “Uma Janela aberta para a poesia da Amazônia” Celdo Braga (AM) e lançamento do livro “Varal” ;Oficina “”A poesia como intromissão” Elizeu Braga(RO) ;Oficina literária com poeta Binho(UNIR) e o encerramento com Cine Literatura “Palavra (En) cantada” – Direção Helena Solberg e sarau Poéticas da Floresta com os poetas Elizeu Braga,Analton Alves,Carlos Moreira,Léo Vincey e convidados.
 
Estrela Leminski e Téo Ruiz
O destaque do Flama foi a participação da Estrela Leminsky e Téo Ruiz vindos de Curitiba no show “São Sons” que de forma calorosa foi acolhida e prestigiada pelo público rondoniense que valoriza a cultura,trazendo algo inédito,sendo um dos melhores shows presenciados em Porto Velho ultimamente contando ainda com a participação de artistas locais como Gláucio Giordani e sua filha que subiu ao palco pela primeira vez e Carlos Moreira que de forma única tornaram o show mais especial ainda.

Em Ariquemes com o apoio da FUNCELFundação Cultural de Ariquemes - aconteceram  Oficina Educação, Literatura e Mídias Sociais com Carlos Moreira (RO),Show Caixa de Silêncio com a participação de Estrela Leminski e Téo Ruiz ,Lançamento do Livro “Poesia é Não”,Oficina Musicalidade e Cultura Amazônica, Vertentes para educação , Show Poético musical “Uma janela aberta para a poesia da Amazônia” Celdo Braga (AM) e Lançamento do Livro "Varal". Em Porto Velho além da Parceria com o SESC Rondônia, o FLAMA contou com o patrocínio do Colégio Classe A.
Cordas e Barros


O evento superou a expectativa dos idealizadores , pois de performances a oficinas, jovens e adultos mergulharam no universo mágico da literatura com muita música,lançamento de Livros,saraus que movimentaram a semana em Porto Velho,faltando apenas a cobertura total da imprensa que sequer deu muita atenção ao evento. Segundo participantes do evento “Mostrar que a literatura é imortal e permanecerá para sempre, é fundamental ,pois mesmo com todas as inovações tecnológicas, os escritores estão lá, eternizados em suas obras,mesmo aqui na Amazônia”.

sábado, 13 de abril de 2013

Variedades Linguísticas





A) Ce qué café?
B) Qué.

A) Pó pô pó?
B) Pó pô!

A) Pó pô pão?
B) Pó pô poquin só.

A “tradução” desse diálogo seria a seguinte:

A:Você quer café?
B: Quero.

A: Posso pôr o pó?
B: Pode pôr!

A: Posso pôr pão?
B: Pode pôr um pouquinho só.

O texto parte do princípio de que os mineiros teriam um ritmo de fala bem mais rápido do que os falantes das outras variedades linguísticas. Contudo, ele exagera visivelmente nesse pressuposto, tanto que algumas palavras chegam a serem reduzidas a uma única sílaba. Além disso, a escolha de termos que tenham principalmente a letra P ajuda a melhor visualizar esse efeito.

De fato, a maioria das variedades lingüísticas acaba sendo, a exemplo do que vimos com a variedade mineira, estereotipada. Passa-se uma idéia que, na realidade, não corresponde à verdade sobre essa língua: exagera-se nas diferenças e, não raro, classifica-se tal variedade como “incorreta” e “feia”. Afinal, quem é que já não ouviu falar que no chamado dialeto caipira fala-se tudo “errado”? Que essa língua é “errada”, “feia”, “pobre”?

Entretanto, na realidade, não é a língua usada por um falante que é pobre, mas sim o próprio falante. A falta de acesso à educação formal contribui para que as classes socioeconomicamente desfavorecidas sejam discriminadas também lingüisticamente, sendo atribuída à língua desses falantes todo o preconceito que pesa sobre eles. Sobre isto, o lingüista italiano Maurizzio Gnerre (1985) concluiu: “Uma variedade lingüística ‘ vale’ o que ‘ valem’ na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais”. (Linguagem, escrita e poder, São Paulo, Martins Fontes, p.4).

Variações regionais: os sotaques

Se você fizer um levantamento dos nomes que as pessoas usam para a palavra "diabo", talvez se surpreenda. Muita gente não gosta de falar tal palavra, pois acreditam que há o perigo de evocá-lo, isto é, de que o demônio apareça. Alguns desses nomes aparecem em o "Grande Sertão: Veredas", Guimarães Rosa, que traz uma linguagem muito característica do sertão centro-oeste do Brasil:

Demo, Demônio, Que-Diga, Capiroto, Satanazim, Diabo, Cujo, Tinhoso, Maligno, Tal, Arrenegado, Cão, Cramunhão, O Indivíduo, O Galhardo, O pé-de-pato, O Sujo, O Homem, O Tisnado, O Coxo, O Temba, O Azarape, O Coisa-ruim, O Mafarro, O Pé-preto, O Canho, O Duba-dubá, O Rapaz, O Tristonho, O Não-sei-que-diga, O Que-nunca-se-ri, O sem gracejos, Pai do Mal, Terdeiro, Quem que não existe, O Solto-Ele, O Ele, Carfano, Rabudo.

Drummond de Andrade, grande escritor brasileiro, que elabora seu texto a partir de uma variação linguística relacionada ao vocabulário usado em uma determinada época no Brasil.Observe o texto abaixo:

Antigamente
"Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio."
 
Como escreveríamos o texto acima em um português de hoje, do século 21? Toda língua muda com o tempo. Basta lembrarmos que do latim, já transformado, veio o português, que, por sua vez, hoje é muito diferente daquele que era usado na época medieval.

Língua e status

Nem todas as variações linguísticas têm o mesmo prestígio social no Brasil. Basta lembrar de algumas variações usadas por pessoas de determinadas classes sociais ou regiões, para perceber que há preconceito em relação a elas.

Veja este texto de Patativa do Assaré, um grande poeta popular nordestino, que fala do assunto:

O Poeta da Roça

Sou fio das mata, canto da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de paia de mío.
Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argun menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.
Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! Vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastero, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.
(...)

Você acredita que a forma de falar e de escrever comprometeu a emoção transmitida por essa poesia? Patativa do Assaré era analfabeto (sua filha é quem escrevia o que ele ditava), mas sua obra atravessou o oceano e se tornou conhecida mesmo na Europa.

Leia agora, um poema de um intelectual e poeta brasileiro, Oswald de Andrade, que, já em 1922, enfatizou a busca por uma "língua brasileira".

Vício na fala

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados.

Preconceito linguístico

Uma certa tradição cultural nega a existência de determinadas variedades linguísticas dentro do país, o que acaba por rejeitar algumas manifestações linguísticas por considerá-las deficiências do usuário. Nesse sentido, vários mitos são construídos, a partir do preconceito linguístico.
(*Alfredina Nery Professora universitária, consultora pedagógica e docente de cursos de formação continuada para professores na área de língua/linguagem/leitura)






É por meio da língua que o homem expressa suas idéias, as idéias de sua geração, as idéias da comunidade a que pertence, as idéias de seu tempo. A todo instante, utiliza-a de acordo com uma tradição que lhe foi transmitida e contribui para sua renovação e constante transformação. Cada falante é, a um tempo, usuário e agente modificador de sua língua, nela imprimindo marcas geradas pelas novas situações com que se depara. .Nesse sentido, pode-se afirmar que na língua projeta-se a cultura de um povo, compreendendo-se cultura no seu sentido mais amplo, o conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores espirituais e materiais e características de uma sociedade transmitidos coletivamente.

Ao falar, um indivíduo transmite, além da mensagem contida em seu discurso, uma série de dados que permite a um interlocutor identificar o grupo a que pertence.

A entonação, a pronúncia, a escolha vocabular, a preferência por determinadas construções frasais, os mecanismos morfológicos podem servir de índices que identifiquem:

a) o país ou a região de que se origina;
b) o grupo social de que faz parte (o seu grau de instrução, a sua faixa etária, o seu nível socioeconômico, a sua atividade profissional);
c) a situação (formal ou informal) em que se encontra.

As diferentes maneiras de se “usar” uma língua gera uma grande variedade lingüística.

Se alguém afirmasse “Esses gajos que estão a esperar o elétrico são uns gandulos”, não se hesitaria em classifica-lo como falante de Língua Portuguesa, em sua variante lusa.

Se por outro lado ouvisse , Se abanquem, se abanquem  tchê!”, ficaria claro que se tratava de um falante de Língua Portuguesa, em sua variante brasileira, natural do Sul do país.

O Brasil, em decorrência do processo de povoamento e colonização a que foi submetido e devido à sua grande extensão, apresenta grandes contrastes regionais e sociais, estes últimos perceptíveis mesmo em grandes centros urbanos, em cuja periferia se concentram comunidades mantidas à margem do progresso.
Um retrato fiel, atual, de nosso país teria de colocar lado a lado: executivos de grandes empresas; técnicos que manipulam, com desenvoltura, o computador; operários de pequenas, médias e grandes indústrias; vaqueiros isolados em latifúndios; cortadores de cana; pescadores; plantadores de mandioca em humildes roças ; pompeiros que comercializam pelo sertão; indígenas.

Nos grandes centros urbanos, as variantes lingüísticas geram entre os falantes o preconceito lingüístico, e muitas pessoas são discriminadas por sua forma de falar. No entanto, alguns escritores aproveitaram este fato para caracterizar as personagens que criaram, pois perceberam a riqueza presente nas variantes regionais. Jorge Amado e Graciliano Ramos enriqueceram a literatura brasileira com personagens marcantes como Pedro Bala, Gabriela e Alexandre.
Desvincular o falante de seus costumes e caracteres lingüísticos é afastá-lo de sua essência e autenticidade.





     Portanto:


Variantes Lingüísticas – são usos diferentes que se faz da mesma língua.

As diferenças ocorrem dependendo:

da região em que a língua é utilizada;
da situação em que é utilizada;
da condição social de quem a utiliza;
do grau de escolaridade de quem a utiliza;
do contexto ou da situação em que é utilizada;
da intenção de quem a utiliza;
da pessoa a quem se destina a mensagem;
da origem de quem fala ou escreve;
dos costumes do grupo em que o usuário da língua vive...

Linguagem formal:
segue regras de uma gramática normativa eleita como variedade-padrão,oficial;
menos influenciada por fatores como idade, região, grupo social...
mais utilizada em situações formais: documentos oficiais, textos científicos, textos escolares, palestras, reuniões científicas...
geralmente não emprega gírias.

Linguagem coloquial, informal é caracterizada por:
ser mais utilizada nas situações do cotidiano, isto é, no dia-a-dia, na família, entre amigos;
escolha ou uso de palavras ou expressões do repertório popular, conhecido pela maioria dos falantes;
forma de organizar a frase diferente da variedade ou norma-padrão (como eu vi ele);
emprego de formas reduzidas de palavras (pra, ta, né);
ser mais influenciada por fatores como: idade, região em que é utilizada, profissão, grupo social que o falante mais freqüenta;
ser mais espontânea e descontraída.

Linguagem culta:
É utilizada pelas classes intelectualizadas da sociedade. É a variante de maior prestígio e aquela ensinada nas escolas. Sua sintaxe é mais complexa, seu vocabulário mais amplo e há nela uma absoluta obediência à gramática normativa e à língua dos escritores clássicos.
Linguagem coloquial:
É utilizada pelas pessoas que fazem uso de um nível menos formal, mais cotidiano. Relativamente, a linguagem coloquial apresenta limitações vocabulares incapazes para a comunicação do conhecimento filosófico, científico, artístico, etc. Possui, entretanto, maior liberdade de expressão, sobretudo, no que se refere à gramática normativa. Desenvolvendo-se livre e indisciplinadamente e, não raro, isola-se em falares típicos regionais e em gírias. O Modernismo efetivou a apologia da linguagem cotidiana como melhor veículo de expressão literária, por sua velocidade, espontaneidade e dinamismo, condenando a linguagem culta.
Linguagem popular:
É utilizada por pessoas de baixa ou nenhuma escolaridade. Este nível raramente aparece na forma escrita e caracteriza-se como subpadrão lingüístico. Neste nível, o vocabulário é bastante restrito, com muitas gírias, onomatopéias e formas gramaticalmente incorretas (oropa, pobrema, poblema, nóis vai, nóis fumo, vi ela, lâmpia, etc). Não há, aqui, preocupação com as regras gramaticais.
Regionalismo:
Os estudos dialetológicos de caráter científico iniciaram-se no Brasil com o “Dialeto caipira”, de Amadeu Amaral, publicado em 1920, mas, apesar disso, as pesquisas referentes a esse tema ainda estão, relativamente, em estado primário. Lamentavelmente, grande parte dos livros sobre regionalismo não se preocupa em mostrar as diferenças existentes entre os falares nacionais e sim em mostrar as diferenças entre o Português do Brasil e o Português de Portugal.

O falar brasileiro divide-se entre sul e norte. O que caracteriza esses dois grupos é a expressão cadenciada; a abertura de vogais, a existência de sílabas protônicas, vocábulos diminutivos, advérbios e adjetivos locais, setorizados. Além disso, o regionalismo pode ser definido como meio peculiar de expressão de uma determinada região, refletindo os hábitos e costumes do povo que a habita. Esses vocabulários, expressões e modismos servem, quase que exclusivamente, para comunicar “a cor local”. Para tanto, nem sempre é possível respeitar-se rigorosamente os cânones gramaticais impostos na língua-padrão.

Jargão profissional:
A língua grupal, por sua vez, é hermética, porque pertence a grupos fechados, e existe para tantos quanto forem esses grupos. O jargão é um dos tipos de linguagem grupal. É uma conversação em termos técnicos, daí falar-se em “economês”, “engenheirês”, “sociologês”, etc.
Portanto, o jargão caracteriza-se pela competência de quem o utiliza, por isso, tem que se adequar coerentemente aos nossos vocábulos, enriquecendo-os para que se tenha um bom êxito profissional.
Linguagem giriática:
Outro tipo de linguagem grupal é a gíria. Assim como o jargão, existem tantas gírias quantos forem os grupos que as utilizam: gírias dos jovens (ravers, darkes, clubbers, bykers, skaters, etc.), dos policiais, dos aeronautas, dos jornalistas, etc. A chamada gíria grosseira recebe o nome de calão, contudo, não se deve confundir a gíria com o calão, que é a linguagem dos delinqüentes, dos excluídos.

A gíria pode ser um linguajar muito adequado à expressão informal; é colorida, expressiva, trepidante, dinâmica e, de acordo com Rodrigues Lapa, a gíria nada mais é do que uma forma exagerada de linguagem familiar.
O dinamismo característico da gíria é talvez seu maior defeito, o que, de outra parte, não pode ser recomendado como elemento de estilo. Nem sempre é possível estabelecer distinção precisa entre gíria e expressão popular, mesmo porque, sendo a gíria freqüentemente de origem popular, termina popularizando-se, não poucas vezes, incorporando-se definitivamente à língua.

Antenor Nascentes, em seu livro A Gíria Brasileira, afirma: “Nossa gíria se acha num estado um tanto caótico”; declara: “...inclui a gíria, ao lado da linguagem secreta dos malfeitores (ladrões, malandros, gigolôs, capoeiras) a terminologia especial de certas classes, de certas profissões lícitas, o conjunto de termos particulares, muitas vezes, cômicos, usados por certos grupos sociais como os de estudantes, os de atores, esportistas, militares, etc”.
Neologismos:
Segundo Matoso Câmara Júnior, neologismos são inovações lingüísticas que se firmam numa determinada língua. Podem tratar-se de vocábulos novos (neologismos vocabulares) ou de novos tipos de construção frasal (neologismos sintáticos).
Lingüisticamente, os neologismos resultam do espírito de atualização dos meios de comunicação pela linguagem. Mas João Ribeiro faz uma restrição “Quanto à faculdade de formar palavras novas, é difícil dizer até que limite se deve conceder, mesmo ao escritor, essa regalia”.
Os neologismos revitalizam e atualizam a língua. Por certo, devem ser evitados os abusos, pois todo abuso é passível de censura. As inovações construtivas, porém, que resultam do espírito criador do escritor, estas merecem e exigem o respeito e a admiração do leitor de bom gosto ou justificada formação acadêmica. Cabe, pois, ao escritor, recorrer ao neologismo, no momento oportuno, para atender à exigência da forma de comunicação.
Arcaísmos:
Ainda, de acordo com Matoso Câmara Júnior, em seu Dicionário de Filologia e Gramática, os arcaísmos são vocábulos, formas ou construções frasais que saíram do uso na língua corrente e nela refletem fases anteriores, nas quais eram vigentes. Do ponto de vista comum e sua norma, diz-se que há arcaísmos em falares regionais e que se mantêm por tradição oral formas e construções que a língua comum abandonou e não mais entram em seu uso normal.
Alguns autores apontam como causas dos arcaísmos a pejoração semântica e sinonímica, sobretudo, a chamada pejoração perfeita e procuram dividi-la em reversíveis e irreversíveis, conforme posam ou não voltar à linguagem contemporânea.
Os arcaísmos podem ser gráficos, flexionais, sintáticos e semânticos, sem excluir os arcaísmos léxicos  e devem ser explorados estilisticamente, para que a frase se revigore e, ao mesmo tempo, se torne original.


Espécies de Variação

Variação histórica

Acontece ao longo de um determinado período de tempo, pode ser identificada ao se comparar dois estados de uma língua Portuguesa. O processo de mudança é gradual: uma variante inicialmente utilizada por um grupo restrito de falantes passa a ser adotada por indivíduos socioeconomicamente mais expressivos. A forma antiga permanece ainda entre as gerações mais velhas, período em que as duas variantes convivem; porém com o tempo a nova variante torna-se normal na fala, e finalmente consagra-se pelo uso na modalidade escrita. As mudanças podem ser de grafia ou de significado.

 Variação geográfica

Trata das diferentes formas de pronúncia, vocabulário e estrutura sintática entre regiões. Dentro de uma comunidade mais ampla, formam-se comunidades linguísticas menores em torno de centros polarizadores , política e economia, que acabam por definir os padrões lingüísticos utilizados na região de sua influência e as diferenças linguísticas entre as regiões são graduais, nem sempre coincidindo.

 Variação social

Agrupa alguns fatores de diversidade:o nível sócio-econômico, determinado pelo meio social onde vive um indivíduo; o grau de educação; a idade e o gênero. A variação social não compromete a compreensão entre indivíduos, como poderia acontecer na variação regional; o uso de certas variantes pode indicar qual o nível sócio-econômico de uma pessoa, e há a possibilidade de alguém oriundo de um grupo menos favorecido atingir o padrão de maior prestígio.

Variação estilística

Considera um mesmo indivíduo em diferentes circunstâncias de comunicação: se está em um ambiente familiar, profissional, o grau de intimidade, o tipo de assunto tratado e quem são os receptores. Sem levar em conta as graduações intermediárias, é possível identificar dois limites extremos de estilo: o informal, quando há um mínimo de reflexão do indivíduo sobre as normas lingüísticas, utilizado nas conversações imediatas do cotidiano; e o formal, em que o grau de reflexão é máximo, utilizado em conversações que não são do dia-a-dia e cujo conteúdo é mais elaborado e complexo. Não se deve confundir o estilo formal e informal com língua escrita e falada, pois os dois estilos ocorrem em ambas as formas de comunicação.
As diferentes modalidades de variação lingüística não existem isoladamente, havendo um inter-relacionamento entre elas: uma variante geográfica pode ser vista como uma variante social, considerando-se a migração entre regiões do país. Observa-se que o meio rural, por ser menos influenciado pelas mudanças da sociedade, preserva variantes antigas. O conhecimento do padrão de prestígio pode ser fator de mobilidade social para um indivíduo pertencente a uma classe menos favorecida.


Fonte: google.com