quinta-feira, 11 de abril de 2013

O Portovelhês de cada dia...

por: Marcela Ximenez

“As influências recebidas no falar de Porto Velho podem ser explicadas através dos vários ciclos de ocupação que Rondônia passou e a origem dos migrantes que ajudaram na formação e ocupação das cidades e municípios nos respectivos ciclos e através da observação lingüística”. “A variação nos falares de Porto Velho” – Nair Ferreira Gurgel do Amaral

Falar de Porto Velho sem lembrar da fala cantada do porto-velhense é deixar uma lacuna. O falar do povo do rio Madeira é marcado por um sotaque melodioso e alegre, cheio de palavras herdadas do Nordeste brasileiro que, claro, passaram por transformações em seu significado, como provocar (= desafiar, Dicionário Aurélio), que em “portovelhês” significa vomitar. Expressões genuinamente porto-velhenses ganharam simpatia e, até mesmo, maior carga de sentido do que o termo do qual seria sinônimo. Um exemplo emblemático é: “Hoje está quente ‘quissó’”. Para quem ainda não conhece, ‘que só’ significa algo muito mais que demais. Coisa de Porto Velho. Ou seja, não está quente demais, está muito mais do que quente.

“O ‘quissó’ é uma marca do falar porto-velhense”, afirma a doutora em Linguística, professora Nair Ferreira Gurgel do Amaral, do Departamento de Línguas Vernáculas da Universidade Federal de Rondônia (Unir). Em 1999 ela começou uma pesquisa sobre ‘a variação nos falares de Porto Velho’, que ainda não foi concluída. O motivo não foi outro além da impossibilidade de se fazer um levantamento diante de tanta diversidade. Uma verdadeira colcha de retalhos.

Para se ter ideia da trabalheira, um grupo de linguistas da Universidade de Campinas (Unicamp) está há cinco anos debruçado sobre palavras, sotaques, expressões...e nada! Os estudiosos querem fazer o mapa linguístico não apenas de Porto Velho, o objetivo é traçar o de Rondônia. “Isso é impossível”, decreta Nair. Toda dificuldade está centrada na grande misturada de falares no Estado. Tem gente do Sul, do Centro-Oeste, do Nordeste, do Sudeste e do Norte.

Especificamente na Capital, as colaborações linguísticas vieram dos Estados nortistas, principalmente do Pará e Amazonas, e do Nordeste. O sotaque local é, sem dúvida, herança dos nordestinos, especialmente os cearenses. Uma expressão coloquial com som característico do Ceará: “Ramupubanhu (= vamos para um banho). A palavra banho é um caso do vocabulário porto-velhense (ver box). Para quem não conhece, tem o mesmo significado de balneário. “Não há dúvida que a maior contribuição na linguagem de Porto Velho é dos nordestinos”, confirma a linguista Nair Gurgel.


Um pouco do peculiar vocabulário porto-velhense

Baladeira – estilingue
Banho – balneário
Benjamin – dispositivo que serve para ligar vários aparelhos elétricos em uma só tomada
Bregueço – coisa qualquer
Caba – maribondo
Capitão – bolinho de comida amassado com a mão
Esculhambar – destruir/quebrar/falar mal
Nome – palavrão
Papagaio – pipa
Pipocar – aparecer
Pisero – festa
Provocar – vomitar

Expressões usuais

Tu é leso é?
Iche, tá demorando que só!
Toma! Não disse que tu ia te lascar?
Maninho do céu!


As crianças e adolescentes porto-velhenses também têm um vocabulário próprio. A brincadeira mais rica em palavras é a peteca, que em Porto Velho é o jogo de bolas de gude.

Abirobado – doido
Abofitar – pegar (roubar) as petecas e sair correndo
Aluguel – mentira
Bolô – peteca de maior tamanho
Catar – movimentar a linha do papagaio, fazendo-o ganhar altura
Escalado – sujeito intrometido, que se oferece para ser convidado
Fona – último a jogar (no jogo da peteca)
Imbiocar – inclinar o papagaio para baixo
Marcando – vacilando
Morcegar – pegar carona nas traseiras de automóveis, principalmente ônibus
Queidar – derrubar papagaio
(O portovelhês nosso de cada dia /Marcela Ximenes · Porto Velho (RO)

A matéria de Marcela Ximenez acima retrata bem as variedades linguísticas encontradas no Brasil a fora e nem sempre valorizadas por nós educadores e como Irandé Antunes disse em uma Aula de português: encontro & interação- São Paulo “As novas concepções de linguística – que, na verdade, já não são tão novas assim – podem nos fazer ver o fenômeno da língua muito além das teias gramaticais, com horizontes bem mais amplos, bem mais fascinantes, bem mais humanos, no sentido de que refletem os usos das pessoas em sociedade, isto é, a língua que a gente usa no dia a dia. Essas concepções podem nos fazer perceber muito mais coisas que o “certo” e o “errado”, muito mais a fazer que dar nomes às coisas e aos fatos da língua. Indo além dos rótulos que a linguagem contém, para deixar-nos embriagar pela sua cor, pelo seu perfume e pelo seu sabor.”

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Graciliano, o grande

ArtigoReinaldo Azevedo
Graciliano, o grande


"Vidas Secas poderia ser um romance de denúncia social, eivado de proselitismo. Mas não. Graciliano Ramos repudiavao chamado ‘engajamento’ na arte"

Evandro Teixeira
METÁFORAS QUENTES DE SOL
O sertão de Graciliano Ramos hoje, fotografado por Evandro Teixeira mundo primitivo em linguagem culta e rigorosa
Graciliano Ramos (1892-1953) nunca foi vítima do preconceito organizado que existe contra o Monteiro Lobato para adultos, por exemplo. Sempre foi considerado entre os grandes escritores brasileiros. Mas há muito a crítica e a academia – esta em especial – negam-lhe o devido lugar no panteão da prosa modernista: o topo, onde segue embalsamado por certa mistificação o sem dúvida inventivo Guimarães Rosa. As razões que levam à superestimação de um concorrem para subestimar o outro.

Por que Graciliano agora? A Editora Record relança a sua obra, sob a supervisão de Wander Melo Miranda. Trata-se de um trabalho bem-cuidado, com a recuperação de textos originais, correções feitas pelo próprio escritor, cronologia e bibliografia de e sobre o autor de Vidas Secas – ou "Cyx Knbot" em búlgaro, uma das dezesseis línguas em que ele pode ser lido. O romance, que completa setenta anos, merece especial atenção: além da edição regular, há uma outra, limitada a 10.000 exemplares, no formato de um álbum, com capa dura e papel cuchê (208 páginas, 99 reais): cuidado à altura das belas fotos de Evandro Teixeira, que acompanham o texto. Sete décadas depois da publicação do livro, o fotógrafo refez o roteiro de Fabiano, sinhá Vitória, Baleia e os meninos.

Vidas Secas? É bastante conhecida uma das mais devastadoras passagens da literatura brasileira: as páginas em que Graciliano narra a agonia e morte da cadela Baleia. Fabiano, que vaga com a família pelo sertão, tangido pela seca, decide matá-la com um tiro para aliviar-lhe o sofrimento. Segue um trecho:

"A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia (...) E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo (...). Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano (...). Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora, cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas (...). A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia (...). A pedra estava fria. Certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás (...) gordos, enormes".

Algumas das qualidades que fazem de Graciliano mestre da língua portuguesa e do texto literário estão acima condensadas. Vidas Secas, saído da pena de um escritor das Alagoas, de esquerda, poderia ser um romance de denúncia social, eivado de proselitismo e anseios libertários. Mas não. O autor repudiava o chamado "engajamento" na arte. Referia-se a Jdanov (1896-1948), o comissário da Cultura da URSS que fundara as bases do chamado realismo socialista, como o que era: "uma besta". Baleia é mais comoventemente miserável quando se arrasta sobre dois pés, quando "anda como gente". Ele não deprecia o homem, comparando-o ao cão; antes, hominiza o cão porque vê com compaixão a nossa condição – e essa compaixão inclemente pelo humano é marca da sua obra.Um  dia, em passagem pelo Brasil, José Saramago declarou padecer de "marxismo hormonal". Segundo o escritor português, não merecemos a vida. Ele nos negaria um pedaço de osso. "Preás gordos, enormes", então, nem pensar.

Evandro Teixeira
REGIONALISMO SEM FOLCLORE
O homem do sertão, com seu cachorro, e Graciliano (à dir.): a condição humana expressa na agonia da cadela Baleia 
O mundo da Baleia agonizante é primitivo, feito só de sentidos e sensações. Mas ele nos chega numa linguagem culta, fluente, rigorosa, sem charadas vocabulares para "desconstrução" em colóquios acadêmicos. Tanto em Vidas Secas como na obra de temática urbana, proto-existencialista – Graciliano traduziu A Peste, de Albert Camus, em 1950 –, os adjetivos e as imagens nascem das coisas. Como escrevi num ensaio que integra o livro Contra o Consenso, não há ali "uma única e miserável metáfora que não seja quente de sol (...), pulsante de sangue, aguda de espinhos, dura de pedra. Tudo nasce da matéria precária da vida". A face regionalista de sua literatura não folcloriza a realidade sertaneja, tentando atribuir-lhe alguma metafísica ou lógica interna superiores, que demandassem sintaxe e vocábulos de exceção. O estoque da língua e as regras do jogo lhe bastam. Como ele mesmo escreveu, "começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer".

Atribuo-lhe características de meu gosto pessoal? Não! Era uma escolha consciente. Em 1949, envia uma carta a Marili Ramos, sua irmã. Ela acabara de publicar um conto chamado Mariana. A apreciação do leitor-irmão não tinha como ser mais severa. A tal carta resume um credo literário: "Julgo que você entrou num mau caminho. Expôs uma criatura simples, que lava roupa e faz renda, com as complicações interiores da menina habituada aos romances e ao colégio. As caboclas de nossa terra são meio selvagens (...). Como pode você adivinhar o que se passa na alma delas? Você não bate bilros nem lava roupa. (...) Você não é Mariana, não é da classe dela. Fique na sua classe. Apresente-se como é, nua, sem ocultar nada".
Em Graciliano, a literatura é um jogo da inteligência analítica, como neste trecho de Insônia: "Um silêncio grande envolve o mundo. Contudo, a voz que me aflige continua a mergulhar-me nos ouvidos, a apertar-me o pescoço. (...) explico a mim mesmo que o que me aperta o pescoço não é uma voz, é uma gravata". A conspiração das vozes do silêncio que perseguem o insone perdem imediatamente o encanto de uma maldição metafísica: basta afrouxar a gravata. Sabemos a origem das nossas aflições, o que não quer dizer que tenhamos respostas para elas. Com freqüência, não. E isso nos torna demasiadamente humanos. Não para o comunista Saramago, claro...

Essa lembrança me remete ao mais explicitamente político dos muitos Gracilianos, incluindo aquele que chegou até a ser prefeito da cidade de Palmeira dos Índios (1928-1930). Refiro-me ao livro Memórias do Cárcere, reeditado pela Record em um único volume. O escritor ficou preso entre março de 1936 e janeiro de 1937, acusado de ligações com a conspiração que resultara no levante comunista de 1935. Era mentira. Filiou-se ao PCB só em 1945. Nesse livro, publicado postumamente no ano de sua morte, ele se agiganta. Em muitos sentidos, a cadeia é a caatinga de um Graciliano-Fabiano que, à diferença do personagem de Vidas Secas, consegue se expressar com clareza. Em vez do herói da resistência, o anti-herói dos escrúpulos que comunistas chamariam pequeno-burgueses. Definitivamente, ele não era o "novo homem socialista". Era o velho homem apegado a suas dores privadas, a seus anseios, a suas mesquinharias. Leiam trecho do diálogo que ele trava com um militante comunista russo de nome Sérgio, que acabara de ser torturado. Graciliano pergunta se ele sente ódio: 

"– Ódio? A quem?
– Aos indivíduos que o supliciaram, já se vê.
– Mas são instrumentos, sussurrou a criatura singular.
(...)
– Admitamos que o fascismo fosse pelos ares, rebentasse aí uma revolução dos diabos e nos convidassem para julgar sujeitos que nos tivessem flagelado ou mandado flagelar. Você estaria nesse júri? Teria serenidade para decidir?
– Por que não? Que tem a justiça com os meus casos particulares?
– Eu me daria por suspeito. Não esqueceria os açoites e a deformação dos pés. Se de nenhum modo pudesse esquivar-me, nem estudaria o processo: votaria talvez pela absolvição, com receio de não ser imparcial. (...) Fizemos boa camaradagem. Mas suponho que você não hesitaria em mandar-me para a forca se considerasse isto indispensável.
– Efectivamente, respondeu Sérgio carregando com força no c. Boa noite. Vou dormir. Estendeu-se na cama agreste, enfileirada com a minha junto ao muro, cruzou as mãos no peito. Ao cabo de um minuto ressonava leve, a boca descerrada a exibir os longos dentes irregulares. Nunca vi ninguém adormecer daquele jeito. Conversava abundante, sem cochilos nem bocejos; decidia repousar e entrava no sono imediatamente."

Como se vê, também os monstros morais podem ser torturados. Notem como Sérgio dorme tranqüilo, mesmo depois de supliciado, e com rapidez, o que espanta o observador. Está certo de seu senso de justiça como o crente em uma religião qualquer. Esquerdistas convictos nunca têm dúvidas. Já os personagens do autor de Insônia – a começar do próprio Graciliano em Memórias do Cárcere – não descansam nunca. Quando o brutal Paulo Honório, em São Bernardo, vê consumada a sua obra, restam-lhe a solidão e a insônia. O tema aparece em Angústia ("visões que me perseguiam naquelas noites compridas"), no autobiográfico Infância ("À noite o sono fugiu, não houve meio de agarrá-lo") e até nas suas cartas de amor. O homem de Graciliano vive em vigília, num ambiente sempre hostil, seja a caatinga, a cadeia ou as paisagens íntimas.

Falei de sua compaixão pelas dores humanas. Também nesse caso, seu horizonte não é finalista: não tem uma resposta para a nossa condição nem a vê com moralismo. Paulo Honório, por exemplo, acaba, na prática, matando quem tentara proteger: Madalena, a sua mulher. Tem ciúme da piedade que ela sente do mundo e ódio da sua própria incapacidade de se comover. Narrado em primeira pessoa, o romance não o caracteriza como um monstro. É só um ser desesperado tentando, como todos nós, sobreviver, salvar-se. Honório não é diferente da estabanada menina Luciana, do conto Minsk, nome do seu periquito. Um dia, numa de suas trapalhadas, ela pisa num objeto mole e ouve um grito. 

"Os movimentos de Minsk eram quase imperceptíveis; as penas amarelas, verdes, vermelhas, esmoreciam por detrás de um nevoeiro branco.
– Minsk!
A mancha pequena agitava-se de leve, tentava exprimir-se num beijo:
– Eh! eh!"

"Todo homem mata aquilo que ama", escreveu na cadeia o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900). Por isso nos arrastamos, como Baleia, vida afora, em busca de perdão. Somos uns cães. Mas, ainda assim, dignos de amor. E cerraremos os olhos contando acordar felizes, num mundo "cheio de preás gordos, enormes".

Fonte:  
http://veja.abril.com.br/101208/p_180.shtml

domingo, 31 de março de 2013

O golpe militar no dia 31 de março de 1964 fez o Brasil mergulhar em 21 anos de ditadura

Marcos Chagas
Repórter da Agência Brasil


Brasília - O golpe militar de 31 de março de 1964 foi o mais longo período de interrupção democrática pelo qual passou o Brasil durante a República. Qualificado pela história como "os anos de chumbo", o período da ditadura foi marcado pela cassação de direitos civis, censura à imprensa, repressão violenta das manifestações populares, assassinatos e torturas.

O historiador e cientista político da Universidade de Brasilia (UnB), Octaviano Nogueira, afirmou que o golpe de 1964 resultou no mais duro período de intervenção militar na democracia entre tantos outros desencadeados no decorrer da história republicana. “Entre 1964 e o início dos anos 70 estava em curso o período mais duro da repressão militar”, disse Nogueira.

Segundo ele, 1964 começou, na verdade, quatro anos antes, com a renúncia de Jânio Quadros, da UDN - um partido de direita -, em 1961, sete meses após sua posse. Apoiado por uma ampla coligação, a renúncia deixou um vácuo de poder, uma vez que seu vice, João Goulart, do PTB - um partido de esquerda -, era visto com desconfiança pelas Forças Armadas.

Para garantir a posse de João Goulart e evitar um golpe militar, o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (PTB), desencadeou a Campanha da Legalidade, que reivindicava a preservação da ordem jurídica e a garantia de posse do vice-presidente que retornava de uma viagem oficial à China. Do porão da sede de governo gaúcho, Brizola fazia pronunciamentos à nação.

“Na verdade, João Goulart ocupou o poder para tapar buraco, uma vez que era o vice de Jânio Quadros. Ele sempre foi um latifundiário e conservador, mas mantinha um discurso de esquerda herdado de Getúlio Vargas, sem nunca concretizar suas propostas”, afirmou o professor Nogueira.

Com o decorrer do tempo, ameaçado por greves constantes, sem o apoio da imprensa e de parcela significativa da sociedade, os militares depõem Goulart. Em 31 de março de 1964 o general Olímpio Mourão Filho deslocou 3 mil soldados do Destacamento Tiradentes, de Belo Horizonte, em direção ao Rio de Janeiro para consolidar o golpe de Estado que garantiria aos militares 21 anos de governo.

O marechal Castello Branco assumiu a Presidência da República e João Goulart se exilou no Uruguai. Coube ao sucessor de Castello Branco, o marechal Artur da Costa e Silva iniciar o processo radicalização do regime a partir da edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5) que deu ao Executivo poderes para fechar o Congresso Nacional, cassar o mandato de políticos e legalizar a repressão aos movimentos sociais. Foram os anos mais duros da ditadura militar, com mortes e torturas de militantes políticos que lutaram pela volta de democracia.

Os militares começaram a ceder à pressão da sociedade organizada pela restituição da democracia em 1978, no quarto governo militar, que tinha como presidente o general Ernesto Geisel. Coube a ele instituir o processo de “abertura política lenta e gradual", relatou certa vez à Agência Brasil o ex-senador Marco Maciel (DEM-PE), quando ainda ocupava uma cadeira no Senado.

Pela Emenda Constitucional nº 11, promulgada pelo Congresso Nacional em 13 de outubro de 1978, foram revogados todos os atos institucionais e garantida a imunidade parlamentar, lembrou Marco Maciel, à época integrante da Aliança Renovadora Nacional (Arena) partido que apoiava o regime. A aprovação da Lei da Anistia, no entanto, caberia ao general João Baptista Figueiredo, último presidente militar. A anistia que deveria restituir os direitos políticos dos perseguidos pela ditadura, acabou favorecendo também os militares.

O governo de Figueiredo foi marcado por uma série de atentados terroristas promovidos pelo Estado, como explosões de bancas de revistas, uma bomba enviada à sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a frustrada tentativa de explodir uma bomba no show comemorativo ao Dia do Trabalho, no Riocentro, em 30 de abril de 1981.

Em 1984 a pressão popular ganhou as ruas pedindo eleições diretas para presidente, com o movimento conhecido como Diretas Já. Porém, com a derrota da Emenda Dante de Oliveira, que instituía as eleições diretas para presidente da República em 1984, Tancredo Neves foi o nome escolhido para representar uma coligação de partidos de oposição reunidos na Aliança Democrática.

Em 1985, Tancredo Neves é eleito, mas morre antes de tomar posse. Em seu lugar assume o vice-presidente José Sarney, atual presidente do Senado, que governou o país por cinco anos.

A transição democrática, na opinião do cientista político da UnB, foi concluída em 1990 com a posse do primeiro presidente eleito pelo povo, Fernando Collor de Mello, que acabaria renunciando para evitar o impeachment. O vice-presidente Itamar Franco, hoje senador pelo PSDB-MG assumiu o governo. Ele foi sucedido por Fernando Henrique Cardoso (PSDB) que teve dois mandatos. Depois, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) governou o país por oito anos, o que, na opinião de Nogueira, consolidou da democracia brasileira, com a chegada de Lula, um operário, ao poder.

domingo, 24 de março de 2013

Por que ler Graciliano Ramos, 60 anos depois


* Por Meire Kusumoto
O escritor Graciliano Ramos com as netas Sandra e Vânia, filhas de Júnio Ramos / divulgação

No último dia 20 de março, a morte de Graciliano Ramos completou 60 anos. Seis décadas sem a caneta áspera e feroz do autor, que é um dos gênios da literatura brasileira e por isso o homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2013. O distanciamento da data não torna a obra do escritor alagoano menos relevante. Ao contrário: é aí que se percebe como o termo imortal faz todo o sentido quando colado a autores como ele, que nem chegou a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL). Quase 80 anos depois da publicação de Vidas Secas (1938), um retrato cru das dificuldades climáticas enfrentadas no interior do Nordeste, o sertão tem a pior seca dos últimos 40 anos, de acordo com a Defesa Civil da Bahia.

No campo econômico e social, presente também em São Bernardo (1934), outro romance que se candidata a obra-prima de Graciliano, a situação não está muito melhor. No Índice de Desenvolvimento Humano, ranking da ONU que mede a qualidade de vida de cada país com base na renda per capita, expectativa de vida e escolaridade da população, o Brasil amarga a 85ª posição, segundo dados de 2012. “Por mais que tenham se verificado avanços no país, algumas questões seguem aguardando soluções estruturais e definitivas”, diz Dênis de Moraes, autor da biografia O Velho Graça (Boitempo, 2012). Eram essas questões que impulsionavam Graciliano, nas crônicas e na ficção.

Para o biógrafo, o escritor demonstrava sério compromisso com o destino do brasileiro, principalmente daqueles que sofrem e são explorados. “Ele faz de seus escritos um instrumento de interpretação e intervenção na realidade social e política do país”, diz. O próprio Graciliano reconheceu a motivação em entrevista Ernesto Luiz Maia, pseudônimo de Newton Rodrigues, em 1944. "O conformismo exclui a arte, que só pode vir da insatisfação. Felizmente para nós, porém, uma satisfação completa não virá nunca", disse.

O alagoano, que foi preso pela polícia política de Getúlio Vargas em 1936 sem motivo concreto, prisão que depois dará origem ao romance autobiográfico Memórias do Cárcere (1953), se mostra crítico e rigoroso com qualquer tipo de opressão -- social, política, econômica ou mesmo afetiva, o que pode em parte ser explicado pela difícil relação que teve com os pais, duros e distantes.

Essas motivações pautam tanto Memórias do Cárcere como, por exemplo, São Bernardo, romance crítico sobre um fazendeiro ambicioso que coisifica as pessoas e estraga uma relação amorosa. O já citado Vidas Secas, sobre uma família de retirantes em busca de sobrevivência, ao passo que o agudo Angústia, de 1936, fala de um homem, Luís da Silva, que sofre tanto por se sentir inferiorizado quanto por perder a mulher que ama para o maior rival no campo amoroso e social, o gordo e rico Julião Tavares.

Em comum, essas obras têm também o olhar amplo de Graciliano, que analisava tanto os coletivos humanos quanto os indivíduos. É o que Dênis de Moraes aponta como conexão profunda do autor com as variações e as manifestações da alma humana. “A obra de Graciliano reflete sensibilidade para com as aspirações, as vicissitudes e as expectativas dos homens na sua passagem pelo mundo”, afirma o biógrafo.

Assim, o autor consegue se comunicar com todos os tempos históricos, contextos e situações que envolvem o indivíduo.

Linguagem – O apuro da escrita de Graça, como era chamado pelos amigos, também é apontada como um fator determinante para a sua permanência. Seus textos primavam pela linguagem, bela mas sem penduricalhos, e eram revisados diversas vezes para chegar ao o essencial - e à forma correta. "Dicionário, para mim, nunca foi apenas obra de consulta. Costumo ler e estudar dicionários. Como escritor, sou obrigado a jogar com palavras. Logo, preciso conhecer o seu valor exato", disse o escritor em entrevista a Homero Senna, em 1948, com o jeito ríspido que se tornou quase folclórico. Na mesma entrevista, Graciliano decretou também, sério e certeiro: "Não há talento que resista à ignorância da língua".

É possível dizer que os textos contundentes do alagoano não tinham qualquer excesso para não colocar nem a linguagem nem o conteúdo em risco. É como se para o escritor não houvesse embate entre ética e estética -- as duas eram uma coisa só, trabalhavam juntas para contar uma história, sem ceder a vaidade ou clichês. “Da mescla entre contenção formal e revolta temática, o artista extrai a sua força, que o engrandece e o afasta de qualquer esquematismo redutor”, diz Thiago Mio Salla, organizador do livro Garranchos (Record, 2012), que reúne crônicas de Graciliano publicadas na imprensa.

Outro ponto alto do texto de Graça, segundo Miguel Conde, o curador da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2013, que tem o alagoano como homenageado, é a maneira como ele relaciona a linguagem com a experiência de vida das personagens, especialmente em Vidas Secas, em que o sertanejo Fabiano e a família têm uma linguagem gutural. “O livro é muito mais que um simples romance documental, preocupado somente com as condições sociais do sertão brasileiro. Poucas pessoas abordam tão a fundo a relação entre linguagem e compreensão de mundo como Graciliano em Vidas Secas, diz Conde.

No entanto, ainda que se expresse pelo uso da palavra escrita, o alagoano e sua obra estão longe de ser objeto de estudo somente de pesquisadores de literatura brasileira. Como lembra Mio Salla, multiplicam-se trabalhos de mestrado e doutorado sobre o autor nas mais diversas áreas, como educação, história e ciências sociais, que abordam diferentes aspectos de seus livros. “Graciliano Ramos é um dos principais artistas e intérpretes do país.”

Seus livros conseguem de fato, e com maestria, ultrapassar limites de disciplina teórica, data, local de publicação ou contexto histórico, e até hoje são lidos por aqueles que se interessam em conhecer um clássico universal da literatura. De acordo com Sylvio Back, diretor do documentário O Universo Graciliano, um perfil feito a partir de entrevistas com conhecidos do autor, a modernidade do escritor, a quem chama de “esfinge”, é inconteste. “Ele deixa uma obra sólida e incólume, inoxidável às intempéries político-ideológicas de seu tempo.”

Sim, Graciliano Ramos precisa ser lido.

Fonte: Revista VEJA

domingo, 17 de março de 2013

Diferença entre Patrimônio Brasileiro Material e Imaterial

Patrimônio brasileiro


Material e imaterial
O Patrimônio Cultural pode ser definido como um bem (ou bens) de natureza material e imaterial considerado importante para a identidade da sociedade brasileira.

Segundo artigo 216 da Constituição Federal, configuram patrimônio "as formas de expressão; os modos de criar; as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; além de conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico."

Carnaval com bonecos gigantes faz parte do Patrimônio Imaterial
Breno Laprovitera/Embratur
  • Carnaval com bonecos gigantes faz parte   
  • do Patrimônio Imaterial
  No Brasil, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é responsável por promover e coordenar o processo de preservação e valorização do Patrimônio Cultural Brasileiro, em suas dimensões material e imaterial.   

Os bens culturais imateriais estão relacionados aos saberes, às habilidades, às crenças, às práticas, ao modo de ser das pessoas. Desta forma podem ser considerados bens imateriais: conhecimentos enraizados no cotidiano das comunidades; manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas; rituais e festas que marcam a vivência coletiva da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social; além de mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e se reproduzem práticas culturais.

Na lista de bens imateriais brasileiros estão a festa do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, a Feira de Caruaru, o Frevo, a capoeira, o modo artesanal de fazer Queijo de Minas e as matrizes do Samba no Rio de Janeiro.

O patrimônio material é formado por um conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e das artes aplicadas. Eles estão divididos em bens imóveis – núcleos urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais – e móveis – coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos.

Entre os bens materiais brasileiros estão os conjuntos arquitetônicos de cidades como Ouro Preto (MG), Paraty (RJ), Olinda (PE) e São Luís (MA) ou paisagísticos, como Lençóis (BA), Serra do Curral (Belo Horizonte), Grutas do Lago Azul e de Nossa Senhora Aparecida (Bonito, MS) e o Corcovado (Rio de Janeiro).

Fonte:Iphan 

O Príncipe - Maquiavel

Fonte: Faculdade Sul-Americana (FASAM) Goiânia Texto do Professor: Alexandre Francisco de Azevedo Disciplina: Teoria Geral do Estado & Ciência Política

" Nicolau Maquiavel, autor do livro intitulado “O Príncipe”, escrito no ano de 1513, em Florença, na região italiana Toscana, viveu entre 1469 e 1527, tendo a primeira edição de seu opúsculo publicada postumamente, em 1532. Neste ano, após a dissociação do governo da cidade e a volta da dinastia Médici ao poder, Maquiavel foi preso, inculpado de tramoia e conspiração.

O pontífice Leão X, entretanto, concedeu-lhe remissão e, assim sendo,Nicolau retirou-se da vida pública, após ter ingressado na carreira diplomática num período em que Florença vivia uma República, após a destituição dos Médici do poder, passando, a partir de então, a escrever suas grandes obras. É considerado um dos principais intelectuais do Renascimento, pois inaugurou o pensamento político moderno, sendo, portanto, considerado o pai da Ciência Política e um dos fundadores da base da legitimação do poder, tão necessária em meio a constantes períodos conturbados da vida política pretérita e hodierna.

É necessária uma contextualização histórica para que, só assim, possamos compreender os motivos que influenciaram e impulsionaram Maquiavel a escrever tão bela obra, detentora de experiências vivenciadas pelo autor e observadas pelo mesmo desde a Antiguidade Clássica - quando cita exemplos gregos, romanos e de vários outros povos - até a Idade Média e início da Idade Contemporânea, quando da instável disputa política pelo controle e manutenção territorial das cidades-estados da Península Itálica.

Alguns estudiosos especialistas na área dizem que Maquiavel escreveu a obra para tentar obter confiança do duque de Urbino, Lorenzo I de Médici (1492- 1519), a quem fez uma dedicatória no término da obra, creditando neste a possibilidade de angariar um cargo público novamente, fato não consubstanciado.
Deixando aquém todos os interesses políticos e subjetivos que levaram Maquiavel a escrever a obra, dirijamo-nos para o principal assunto abordado no texto, dotados de imparcialidade: os tipos de principados, as formas de governá-los, mantê-los e ampliá-los, ou seja, o paradigma aparentemente paradoxal a ser seguido, caso ambicionarmos nos tornar exímios príncipes.

Já no início do livro, define os principais tipos de principados, que os são o hereditário, o novo e o misto, devendo o príncipe possuir grande diligência quanto à arte de guerrear para que logre êxito em sua sucessão, no primeiro caso; em sua conquista, no segundo; e, por derradeiro, em sua invasão e inclusão ao velho principado, devendo, em todos os casos, possuir maior atenção em relação às formas pelas quais conseguirá mantê-los sob seu domínio. Além disso, afirma que, na prática da guerra e na manutenção do poderio, os príncipes são guiados pela fortuna, isto é, pela sorte e circunstâncias, ou por suas virtudes, ou seja, pelos seus méritos, qualidades e valores.

O principado hereditário é relativamente fácil manter, porquanto o herdeiro é aceito por seus súditos facilmente, mantendo-se soberano sem obstáculos, a menos que uma força maior o destitua. Em contrapartida, o principado novo é o que demanda maior diligência por parte do príncipe, uma vez que o mesmo que tomou o poder será imediatamente avaliado pelos novos súditos, que acreditam poder melhorar de condição amotinando-se contra o novo dominador, que deverá não apenas oprimi-los, mas também agradá-los, e honrar a dívida para com os provincianos que dominou.

Os principados mistos, por sua vez, demandam também grande zelo, uma vez que acostumados a outras culturas, haverá divergências de línguas, leis e costumes entre o novo e o velho principado. Porém, a fim de precaver um possível infortúnio, Maquiavel nos diz a forma para o tolhermos, sendo preciso extinguir a linhagem de sangue do príncipe anterior e não alterar as leis vigentes, nem o fisco. Assim, em diminuto tempo, o novo principado será totalmente anexado ao antigo.

Maquiavel diz, ainda, que a guerra não se evita, apenas se adia em favor de outrem e a posterga, sendo vantajoso apenas para o oponente, dado que o ser humano possui como característica inata o desejo de conquista. Ademais, recomenda que todo tipo de insurreição interna, por mais que seja propedêutica, abolida na raiz seja, porquanto não se pode empreender uma guerra sem preparo para tal.
Sendo uma forma dos homens serem louvados ou vituperados, recomenda-se que seus objetivos e pensamentos estejam permanentemente voltados à guerra, dado que é a atitude esperada e inerente ao exercício do poder, pois é a arte de quem comanda. Afirma, ainda, que o príncipe deve manter a fama de cruel, pois isto auxilia a manter a tropa unida e disposta ao combate. Além disso, visto que a guerra traz prestígio, recomenda aos mesmos que empreendam grandes campanhas militares para legar memoráveis exemplos de si mesmos, pois não há nada, além disso, que faça um príncipe quisto.

Há duas formas de transmutar-se de homem privado a príncipe, seja elas por meios execrável e celerados, ou graças ao favor de seus concidadãos. Na primeira, incluem-se os soberanos que tomaram o poder por atitudes criminosas, como massacres, traições, crueldades, assassinatos e selvageria; na segunda, o soberano constitui um principado civil. Para obtê-lo, diferentemente dos demais, não é preciso fortuna, nem virtude, mas astúcia e apoio popular ou dos poderosos.

Segundo Maquiavel, ao tomar um Estado, o príncipe usurpador deve fazer a maldade de uma só vez, para que não seja apreciada vagarosamente pelo paladar da população, devendo praticar a violência com um só golpe. Diferentemente dos benefícios, que devem ser feitos aos poucos, para que as pessoas os apreciem por longo período, e esqueçam as coisas ruins pretéritas, tranqüilizando os súditos e os seduzindo.
Discorrer sobre os principados eclesiásticos, para Nicolau, seria presunçoso e temerário, uma vez que estes são manteúdos por antigas leis religiosas, louvados e mantidos por Deus, pois, sendo governados por razões superiores, que a mente humana não alcança. São tão insignes que, não importando como os príncipes vivam ou se comportem, conseguem os conservar no poder.

Há uma distinção entre os soldados próprios, mercenários, auxiliares e mistos. As armas próprias são aquelas compostas por cidadãos, súditos e vassalos, sendo a mais segura de todas, pois, sem elas, o príncipe fica inteiramente à mercê da fortuna; as mercenárias combatem não por lealdade, mas por interesse ou dinheiro, pois são inúteis e perigosas, uma vez que são desunidas, indisciplinadas, ambiciosas e infieis; já as auxiliares, solicitadas a outro poderoso para que o defenda, são piores que as anteriores, porquanto assim que tiverem a oportunidade de destruir-lhe, o farão, caso seja menos poderoso que aquele; numa mistura das anteriores, obtemos as armas mistas, cujo próprio adjetivo já ostenta o significado e importância momentânea da mesma.

Nos tempos quiescentes e brandos, Maquiavel ainda nos recomenda a estarmos em constante treinamento à guerra, caso esta nos surpreenda, através da faculdade de conhecer bem o território, para localizar o inimigo, montar acampamentos, fugir às emboscadas, conduzir a tropa, organizar expedições, armadilhas e, em boas situações, assediar outras províncias. Um excelente exercício também é a observação dos soberanos anteriores, da forma como conduziram as guerras, analisando os motivos de suas vitórias e derrotas. Deve aproveitar, pois, este período com destreza, para que quando sua fortuna for mudada e advierem as adversidades, esteja preparado para o combate.
Os principais vícios e riscos que colocam em perigo o governo do príncipe, segundo o autor, é ser miserável, avarento, rapace, desleal, sanguinário, efeminado e pusilânime, lascivo, soberbo, inflexível e incrédulo, devendo estes adjetivos ser extintos ou, pelo menos, raros a um príncipe.

O livro também nos exorta quanto à liberalidade, sendo esta um fator perigoso no que diz respeito a ser fausto e luxuoso, pois sobrecarrega a população de tributos e arrecadações, necessárias para manter a reputação do príncipe, o que fará com que este seja odiado ou desprezado pelos súditos. Para Maquiavel, entretanto, ser liberal é uma vantagem ao dominador, desde que seja comedida; outrossim, em benefício dos cidadãos, ele não deverá se importar com o labor de avarento, pois o deverá ser para manter a parcimônia e evitar que seus cidadãos empobreçam.
É preciso, sobremaneira, inspirar temor sem promover o ódio, em uma alusão maquiavélica, pois é preferível e mais seguro ser temido, que amado, porquanto é difícil conciliar as duas coisas, dado que o vínculo de amor entre os homens é frágil, uma vez que é mantido por reconhecimento e passível de ser rompido pelo egocentrismo.

Nas palavras de Maquiavel, os homens se esquecem com maior rapidez da morte de um pai que da perda do patrimônio, pois eles são essencialmente maus e, em geral, são ingratos, dissimulados, inconstantes, avessos ao perigo e gananciosos; sendo assim, é precípuo e fundamental que o príncipe não o ameace e, máxime, também não tome as mulheres de seus concidadãos, a fim de tolher as insurreições internas e não ensejar o ódio à população.

Para o autor, ainda, existem duas matrizes de combate, sendo a primeira o combate por meio das leis, e a segunda por uso da força, própria dos animais; sendo a primeira matriz um tanto quanto ineficaz, torna-se necessário evocar a segunda. O príncipe precisa ser raposa e leão, metaforicamente, visto que a raposa tem grande astúcia e o leão muita força, combinação perfeita para proceder com inteligência, sabedoria e vigor, quando necessário.
Maquiavel recomenda, outrora, que o príncipe tenha atitudes humanitárias e munificentes para com o cotidiano da cidade e a vida civil econômica, sem, no entanto, deixar de manter a majestade de seu posto, estimulando os cidadãos a exercer seus ofícios no comércio, na agricultura e em outras atividades; oferecer hospitalidade aos homens virtuosos e aos artistas; assegurando o direito à propriedade e incitando a abertura de novos negócios, sem que os tributos sejam um empecilho à atividade mercantil. Ademais, deve promover espetáculos e festas, reunindo-se com a comunidade, conhecendo os bairros e corporações, valendo-se da política do pão e circo.

O príncipe não pode se apoiar por inteiro na fortuna, segundo Maquiavel, pois ele se arruinará tão logo as circunstâncias mudem, porquanto a fortuna determina apenas parte das ações humanas e a outra parte é governada pelo livrearbítrio, podendo, sim, os homens mudarem o mundo – ao contrário do que muitos pensam que este é governado apenas pela fortuna e por Deus. Muitos ainda acham que não vale a pena lutar pelo curso das coisas e, por isso, deixam se conduzir pelo destino e pela sorte.

Maquiavel ainda compara a fortuna a um rio caudaloso e devastador, que com suas águas enfurecidas alaga planícies, derruba árvores e faz ruir construções, quando tomado por ímpeto. O príncipe precavido, entretanto, constrói diques, barragens e canais de irrigação para que, quando advir a impetuosidade do rio, seu principado não seja assolado pela fúria das águas, uma vez que estas são distribuídas com destreza aos canais previamente construídos. Se a virtude não lhe colocar freios, portanto, a fortuna demonstra toda a sua potência; o autor compara, igualmente, a fortuna à mulher, que é favorável aos jovens, pois são menos respeitosos, mais ferozes e audaciosos, comandando com maior facilidade. É melhor ser impetuoso que prudente, portanto, para comandar a fortuna, pois apenas por meio da virtude um príncipe pode vencer a instabilidade da fortuna e, assim, conservar seu território."

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

FONTES ALTERNATIVAS DE ENERGIA

Uma meta para o futuro


Na maioria dos países do mundo, o modelo energético, é baseado no consumo de combustíveis fósseis, ou seja, petróleo, gás natural e carvão.
O principal problema deste modelo, é que os recursos não são renováveis, além de ocasionarem muitos danos ao meio ambiente, como a poluição atmosférica, causadora do efeito estufa.

A dependência de consumo de combustíveis fósseis para a produção de energia certamente afeta a vida na terra e compromete a qualidade ambiental, e continuará sendo desse jeito. Sendo assim, é necessário que o trabalho científico e tecnológico do mundo atual sejam dirigidos para produzir outros tipos de energia (que sejam menos poluidoras e que causem menos impactos ambientais, diferente do petróleo), as chamadas energias alternativas.

Brasil (diferentemente da maioria dos países), a produção de energia é feita principalmente através de hidrelétricas, ou seja, de energia hidráulica pois o país dispõe de grandes bacias hidrográficas. A energia produzida através de hidrelétricas é considerada limpa e renovável, ao contrário daquelas derivadas dos combustíveis de petróleo.

Sabendo do que foi falado nos parágrafos acima, Quais são os diferentes tipos de energia? Como funcionam? Qual é a próxima fonte de energia quando se acabar o petróleo? Qual é a grande luta para existirem as energias alternativas?

A energia alternativa (ao petróleo) é uma forma de produzir energia elétrica, causando menos problemas à sociedade atual, ao meio ambiente e, menos poluição. Os principais tipos de energia alternativa que existem, são:

Energia Solar: Abundante, mas cara
A energia solar, é uma energia abundante, porém, é muito difícil de usá-la diretamente. Ela é limpa e renovável, e existem três maneiras de fazer o seu uso:
Células fotovoltáicas, que são consideradas as que mais prometem da energia solar. A luz solar é diretamente transformada em energia, através de placas que viram baterias.
Os captadores planos, ou, coletores térmicos, que, num lugar fechado, aquecem a água, que com pressão do vapor, movem turbinas ligadas aos geradores.

Também chamados de captadores de energia, os espelhos côncavos refletores, mantém a energia do sol que aquecem a água com mais de 100° C em tubos, que com a pressão, movimentam turbinas ligadas ao gerador. O único e pequeno problema dos espelhos côncavos, é que eles têm que acompanha diretamente os raios do sol, para fazer um aproveitamento melhor.
Como à noite e em dias chuvosos não tem sol, a desvantagem da energia solar, é que nesses casos ela não pode ser aproveitada, por isso que é melhor produzir energia solar em lugares secos e ensolarados.

Um exemplo do aproveitamento dessa energia, é em Freiburg, no sudeste da Alemanha. A chamada “cidade do sol”, lá existe o bairro que foi o primeiro a possuir casas abastecidas com energia solar. As casas são construídas com um isolamento térmico para a energia ser “guardada” dentro. Quando as casas são abastecidas com mais energia do que necessário, os donos vendem o restante de energia para companhias de eletricidade da região.
Na cidade , há casas que giram de acordo com o movimento do sol. A igreja e o estádio de futebol, são abastecidos com energia solar.Com o uso de energia solar, a cidade já deixou de usar mais de 200 toneladas de gás carbônico por ano.

Energia Eólica: limpa, mas demorada
É a energia mais limpa que existe. A chamada energia eólica, que também pode ser denominada de energia dos ventos, é uma energia de fonte renovável e limpa, porque não se acaba (é possível utilizá-la mais que uma vez), e porque não polui nada. O vento (fonte da energia eólica), faz girar hélices que movimentam turbinas, que produzem energia. O único lado ruim que a energia eólica possui é que como depende do vento, que é um fenômeno natural, ele faz interrupções temporárias, a maioria dos lugares não tem vento o tempo todo, e não é toda hora que se produz energia. O outro lado ruim, é que o vento não é tão forte como outras fontes, fazendo o processo de produção ficar mais lento.

são muitos os lugares que existem condições favoráveis ao aproveitamento da energia eólica, ou seja, não é todo lugar que apresentam ventos constantes e intensos. Os lugares que tem as melhores condições para atividade, são: norte da Europa, norte da África e a costa oeste dos Estados Unidos.

Na maioria dos casos essa forma de energia é usada para complementar as usinas hidroelétricas e termoelétricas.
Um exemplo para mostrar como a energia dos ventos é econômica, é que no Estado da Califórnia, que com o aproveitamento dessa energia, economizou mais de 10 milhões de barris de petróleo.

Energia Nuclear, eficaz, mas perigosa
A energia Nuclear, que pode também ser chamada de energia atômica, é a energia que fica dentro do núcleo do átomo, que pode acontecer pela ruptura ou pela fissão do átomo.
Como a energia atômica não emite gases ela é considerada uma energia limpa, mas tem um lado ruim, gera lixo atômico, ou resíduos radioativos que são muitos perigosos aos seres humanos pois causam mortes e doenças.

Por isso, quando produzem a energia nuclear, é preciso um desenvolvimento muito seguro, que isolem o material radioativo durante um bom tempo.
Nas usinas atômicas, que também podem ser chamadas de termonucleares, em vez de ser usada a queima de combustíveis, a energia nuclear gera um vapor, que sob pressão, faz girar turbinas que acionam geradores elétricos.

A energia atômica é usada em muitos países e veja a porcentagem de cada um: EUA, 30,7%; França, 15,5%;Japão, 12,5%; Alemanha, 6,7%; Federação Russa, 4,8%. No Brasil, apesar de usar muito a energia Hidráulica, a energia nuclear também tem uma pequena porcentagem de 2,6%.

Energia dBiomassa: uma energia vegetal
a Para produzir a energia da biomassa, é preciso um grande percurso. Um exemplo da biomassa, é a lenha que se queima nas lareiras. Mas hoje, quando se fala em energia biomassa, quer dizer que estão falando de etanol, biogás, e biodiesel, esses combustíveis, que tem uma queima tão fácil, como a gasolina e outros derivados do petróleo, mas a energia da biomassa, é derivada de plantas cultivadas, portanto, são mais ecológicas.

Para ter uma idéia de como a energia da biomassa é eficiente, o etanol, extraído do milho, é usado junto com a gasolina nos Estados Unidos; e também, é produzido da cana de açúcar, o etanol responde metade dos combustíveis de carro produzido no Brasil. Em vários países, mas principalmente nos Estados Unidos, o biodiesel de origem vegetal é usado junto ou puro ao óleo diesel comum. Segundo o diretor do centro nacional de bioenergia: “Os biocombustíveis são a opção mais fácil de ampliar-se o atual leque de combustíveis”

O único problema da biomassa é que por conta da fotossíntese (o processo pela qual as plantas captam energia solar) é bem menos eficiente por metro quadrado do que os painéis solares, por causa desse problema, é que para ter uma boa quantidade de captação de energia por meio de plantas, é preciso uma quantidade de terra bem mais extensa. Estima-se de que para movimentar todos os meios de transportes do planeta só usando biocombustíveis, as terras usadas para agricultura teriam que ser duas vezes maiores do que já são.

Para ser mais eficaz, deixando mais rápidas as colheitas, e deixando ser mais captadores de energia, cientistas estão fazendo pesquisas. Atualmente, os combustíveis extraídos da biomassa são vegetais, como o amido, o açúcar, e óleos, mas alguns cientistas, estão tentando deixar esses combustíveis líquidos. Outros estão visando safras que gerem melhores combustíveis.
E esse é o grande problema da energia da biomassa, mas para Michel Pacheco, “Estamos diante de muitas opções, e cada uma tem por trás um grupo de interesse. Para ser bastante sincero, um dos maiores problemas com a biomassa é o fato de existirem tantas alternativas“

Energia Hidráulica
A energia hidráulica pode ser considerada alternativa em relação aos combustíveis fósseis, porém no Brasil ela é utilizada rotineiramente.
Nas usinas hidrelétricas, a pressão das águas movimentam turbinas que estão ligadas aos geradores de corrente elétrica. Na maioria das vezes são construídas barragens, que servem para represar os rios. Com muita pressão, a água acumulada é liberada, e as turbinas giram.
A energia hidráulica, tem muitas vantagens, porque é uma fonte limpa, não causa grandes impactos ambientais globais, é renovável e é muito barata comparada com as outras fontes.
Também existem as desvantagens, que são: inundação de áreas habitadas causando deslocamentos de populações e destruição da flora e fauna.

De toda energia gerada no mundo, cerca de 15% é de energia hidráulica, e só no Brasil, essa quantidade, é de 90%.

Energia Geotérmica
A energia geotérmica é gerada pelo calor das rochas do subsolo. No subsolo as águas dos lençóis freáticos são aquecidas, e então, são utilizadas para a produção energia.
A extração dessa energia só é possível acontecer em poucos lugares. Alem disso, é muito caro perfurar a terra para chegar nas rochas aquecidas.

O fato de que só existir essa energia perto de vulcões, muito poucos países geram essa energia, e esses paises são: Nicarágua, Quênia, El salvador, México, Chile, Japão, e França. Sendo assim o uso deste tipo de energia é de difícil utilização na grande maioria dos países.

Energia térmica dos oceanos
Graças à diferença de temperatura das águas profundas e águas que ficam na superfície, a água marinha pode ser usada para fazer um armazenamento de energia solar, e geradora de energia elétrica.

Em usinas que fazem esse “sistema”, a diferença de temperatura faz um movimento em tubos circulares. Isso ocorre em lugares fechados, conectados a turbinas que estão ligadas em geradores, produzindo energia elétrica. Uma vantagem dessa energia é que elas são renováveis, e uma desvantagem é que o custo é muito alto.
O primeiro lugar que fizeram o uso desse tipo de energia, foi nos Estados Unidos em 1979, e estão produzindo energia, até hoje.

Pesquisas revelam através de estimativas, que de toda a energia gerada no planeta, 80% são de combustíveis fósseis, como o petróleo, o carvão e o gás natural. Nos próximos 100 anos, uma coisa que é muito provável, é que com o aumento da população, paralelamente, aumentará o uso de combustíveis fósseis. E uma coisa que não é nada provável, é que essa grande população (que na época estará maior) faça o uso de energia alternativa. Para o professor de engenharia, Martin Hoffer, o esforço de fazer as pessoas deixarem de usar o petróleo, e começarem a usar energia alternativa, é maior do que acabar com terrorismo: “O terrorismo não ameaça viabilidade do nosso modo de vida baseado nos avanços tecnológicos, mas a energia, é um fator crucial”. Um exemplo de como existem energias alternativas que “adiantam” e são “ecológicas”, é que se se nos trocássemos uma lâmpada incandescente por uma fluorescente, nos estaríamos economizando 225 quilos de carvão, alem de deixar de causar poluição.

Os grandes problemas que parte da sociedade luta para ter a energia alternativa são os políticos e as empresas transnacionais (como a Shell, Texaco, Esso, etc.). Como a nossa sociedade é capitalista, grande parte dela não se preocupa nada em relação às conseqüências, querendo cada vez mais construir usinas poluidoras, só pensando no lucro. Poderíamos usar outras fontes menos poluentes, mas por causa do capitalismo, temos um monopólio do uso de energias mais poluidoras. E o que Martin Hoffer levanta é que se a sociedade capitalista não ajudar, podemos ser condenados a depender só dos combustíveis fósseis, cada vez mais poluentes, à medida que diminuem as reservas petroleiras e de gás, com conseqüência catastrófica no planeta: “se não tivemos uma política energética pró-ativa, acabaremos simplesmente usando o carvão, depois o xisto, e em seguida a areia de alcatrão, sempre com um retorno cada vez menor, até que nossa civilização entre em colapso. Mas tal declínio não é inevitável. Ainda temos a possibilidade de escolher.”

Sabendo que futuramente aumentará o número de pessoas, aumentando junto o uso de combustíveis fósseis, algum dia, as grandes reservas petroleiras acabarão, então, pesquisadores trabalham para identificar o próximo grande combustível que abastecerá esse gigantesco planeta. Para alguns especialistas, “não há nenhuma solução milagrosa”, para outros, aqueles mais insistentes, pensam que existem energias infinitas no espaço, mas que para fazer na prática é impossível.

A vontade de carros movidos a hidrogênio, pode dar uma impressão equivocada, porque hidrogênio não é fonte de energia. Para ele se tornar útil, tem que ser isolado e isso requer mais energia do que proporciona. Atualmente o único jeito de produzir energia com hidrogênio, é com combustíveis fosseis, que é um jeito poluidor de fazer, mas estão pensando em um jeito limpo de sua produção: O hidrogênio seria produzido de formas de energias que não liberam poluição (dióxido de carbono) o que precisaria de um uso grande de energia eólica, nuclear e solar. Nos Estados Unidos, uma coisa muito estudada pelo governo, é que poderíamos produzir energia com hidrogênio, usando as grandes reservas de carvão do paÍs, mas armazenando no subsolo o dióxido de carbono.
Isso que nós acabamos de ver sobre o hidrogênio é um belo exemplo de que nós, seres humanos, somos muitos capazes de poder conciliar um desenvolvimento limpo, descobrindo coisas novas, e ao mesmo tempo, preservando o planeta.

Fonte: www.escolaviva.com.br

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Geleiras dos Andes derretem a ritmo mais rápido em 300 anos

As geleiras na região dos Andes sofreram uma redução média de 30% a 50% desde a década de 70 e estão diminuindo ao ritmo mais rápido nos últimos 300 anos, afirma um estudo divulgado na revista especializada CryosphereRealizada pelo Laboratório de Glaciologoia e Geofísica Ambiental de Grenoble, na França, a pesquisa estudou dados de cerca de metade das geleiras da região andina, que fornecem toneladas de água para milhões de pessoas na América do Sul.

Segundo a pesquisa, o derretimento se deve a um aumento médio de temperatura de cerca de 0,7º C entre 1950 e 1994. De acordo com a pesquisa, o degelo está ocorrendo em toda a região tropical dos Andes, mas tem sido mais acentuado nas pequenas geleiras situadas a baixas altitudes.

Geleiras situadas abaixo de 5,4 mil metros perderam cerca de 1,35 metros de espessura de gelo por ano desde a década de 70, o dobro do índice das situadas a altitudes mais elevadas.

Escassez de água ''Como a espessura destas geleiras de baixa altitude raramente supera 40 metros, com tamanha perda anual elas provavelmente irão desaparecer por completo nas próximas décadas'', afirma Antoine Rabatel, do instituto francês responsável pelo estudo. Os pesquisadores disseram ter havido pouca mudança no que diz respeito à quantidade de chuva na região ao longo das últimas décadas e que, portanto, isso não poderia estar por trás na redução das geleiras.

Se não ocorrerem mudanças na regularidade das chuvas na região, a região poderá enfrentar escassez de águas no futuro, afirmaram os cientistas. O vale do Rio Santa, no Peru, poderá ser o mais afetado; centenas de milhares de habitantes se valem das águas glaciais para o uso na agricultura, para o consumo doméstico e para a energia hídrica.

Grandes cidades, como La Paz, na Bolívia, também poderão enfrentar problemas. "Geleiras respondem por até 15% do abastecimento de água de La Paz ao longo do ano. E na temporada seca, essa proporção sobre para 27%'', afirma Álvaro Soruco, do Instituto de Investigações Geológicas e Ambientais da Bolívia.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) tem apontado para a importância das geleiras de montanhas como sensíveis indicadores da ocorrência de mudanças climáticas.

Em todo o mundo, as geleiras têm recuado desde o início do século 20, com poucas exceções. As geleiras do Himalaia que ainda são relativamente pouco estudadas estariam, segundo indícios, acumulando massa, em vez de estarem sofrendo degelo. Cientistas afirmam que a geleira de Chacaltaya, na Bolívia, que costumava contar com a mais elevada pista de esqui do mundo, já quase desapareceu.

Fonte:  http://noticias.terra.com.br

A polêmica da internação à força de usuários de crack


 Até que ponto o Estado pode restringir liberdades individuais, em sociedades democráticas, para garantir a segurança dos cidadãos? Esta antiga questão política voltou a ser debatida na semana passada, quando o governo do Estado de São Paulo iniciou um novo programa de internação involuntária e compulsória de viciados em crack. As drogas, de um modo geral, são um tema sempre em pauta no noticiário brasileiro e, entre elas, o crack, cuja ação é devastadora, tem se destacado nos últimos anos. É bom lembrar que a intervenção das autoridades na Cracolândia paulista começou há um ano. A questão se relaciona com o crime organizado, outro tema muito presente na sociedade brasileira. 
Como a polêmica que se levanta agora está relacionada à intervenção supostamente indevida do Estado na vida do cidadão, vale a pena compreender as bases do sistema democrático.

Entretanto a população deve estar ciente que o crack   tem um poder infinitamente maior de gerar dependência, pois a fumaça chega ao cérebro com velocidade e potência extremas. Ao   prazer intenso e efêmero, segue-se a urgência da repetição. Além de se tornarem alvo de doenças pulmonares e circulatórias que podem levar à morte, os usuários se expõem à violência e a situações de perigo que também podem matá-lo.Entre as conseqüências principais estão:

Intoxicação pelo metal
O usuário aquece a lata de refrigerante para inalar o crack. Além do vapor da droga, ele aspira o alumínio, que se desprende com facilidade da lata aquecida. O metal se espalha pela corrente sanguínea e provoca danos ao cérebro, aos pulmões, rins e ossos.
Fome e sono
O organismo passa a funcionar em função da droga. O dependente quase não come ou dorme. Ocorre um processo rápido de emagrecimento. Os casos de desnutrição são comuns. A dependência também se reflete em ausência de hábitos básicos de higiene e cuidados com a aparência.
Pulmões
A fumaça do crack gera lesão nos pulmões, levando a disfunções. Como já há um processo de emagrecimento, os dependentes ficam vulneráveis a doenças como pneumonia e tuberculose. Também há evidências de que o crack causa problemas respiratórios agudos, incluindo tosse, falta de ar e dores fortes no peito
Coração 
A liberação de dopamina faz o usuário de crack ficar mais agitado, o que leva a aumento da presença de adrenalina no organismo. A consequência é o aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial. Problemas cardiovasculares, como infarto, podem ocorrer
Ossos e músculos
O uso crônico da droga pode levar à degeneração irreversível dos músculos esqueléticos, chamada rabdomiólise.
Sistema neurológico 

Oscilações de humor: o crack provoca lesões no cérebro, causando perda de função de neurônios. Isso resulta em deficiências de memória e de concentração, oscilações de humor, baixo limite para frustração e dificuldade de ter relacionamentos afetivos. O tratamento permite reverter parte dos danos, mas às vezes o quadro é irreversível
Prejuízo cognitivo: pode ser grave e rápido. Há casos de pacientes com seis meses de dependência que apresentavam QI equivalente a 100, dentro da média. Num teste refeito um ano depois, o QI havia baixado para 80
Doenças psiquiátricas: em razão da ação no cérebro, quadros psiquiátricos mais graves também podem ocorrer, com psicoses, paranoia, alucinações e delírios
Sexo
O desejo sexual diminui. Os homens têm dificuldade para conseguir ereção.
Há pesquisas que associam o uso do crack à maior suscetibilidade a doenças sexualmente transmissíveis, em razão do comportamento promíscuo que os usuários adotam
Morte 
Pacientes podem morrer de doenças cardiovasculares (derrame e infarto) e relacionadas ao enfraquecimento do organismo (tuberculose).
A causa mais comum de óbito é a exposição à violência e a situações de perigo, por causa do envolvimento com traficantes, por exemplo.










 Em São Paulo os manifestantes cobram do governo de São Paulo uma política humanitária no combate às drogas e avaliam que a internação compulsória não é eficaz no tratamento de dependentes químicos.
O padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua, considera que a iniciativa do governo estadual é “drástica” e não eficaz. Segundo ele, o governo de São paulo deveria colocar assistentes sociais e psiquiatras nas periferias de São Paulo, e não concentrar o atendimento em um único centro de referência.
- Há uma carência de atendimento social na cidade. Essa é uma medida drástica e bombástica, que quer facilitar algo que é ineficaz - criticou o padre.

O padre Raniel, da Fraternidade do Caminho, considera que a medida é opressora e atenta contra a dignidade do dependente químico e o seu livre arbítrio. Para ele, é necessário dar o poder de escolha ao dependente químico.
- A igreja quer respeitar a dignidade do ser humano. Que ele tenha o poder de escolha, que ele possa se recuperar da dependência química - afirmou o padre Raniel.

Por outro lado a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) disse , durante evento de prefeitos em Brasília, que é necessário "acabar com a falsa polêmica" sobre as internações de viciados em crack, compulsórias ou não.
"Quando for necessária internação compulsória, colocando em risco outras pessoas, e não tiver condição de discernir, Estado e família têm que entrar, essa é a regra", disse a ministra.
Segundo o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), o importante é discernir traficante de usuário. 

"[Para] o traficante, ação policial; [para] o usuário, tratamento e reinserção", defendeu.

Ao lado de Cardozo e da ministra Tereza Campelo (Desenvolvimento Social), Gleisi anunciou que o programa "Crack, é possível vencer", do governo federal, será ampliado com possibilidade de, a partir deste, firmar parcerias com os municípios.



Fonte: http://educacao.uol.com.br
 Jornal de Santa Catarina e A Notícia
 veja.abril.com.br/infograficos/efeitos-crack